Segunda-feira, Setembro 14, 2009
Demora-se um pouco para virar parte da fauna local quando se muda de país (/estado/cidade/bairro). Mas, uma vez cruzado o portal, é muito fácil perder aquele interesse curioso que têm os forasteiros. A gente para de observar. Quase sempre é preciso alguém de fora para abrir de novo os nossos olhos para as particularidades do nosso cantinho do mundo.
Meus pais acabam de deixar Londres depois de oito dias de intensa atividade turística. É a segunda visita deles desde que mudei para cá e tínhamos combinado que, dessa vez, seguiríamos uma programação leve, caseira, com tempo para relaxar. Não funcionou, é claro; a cidade nos seduziu e viramos, de novo, seus andarilhos. E que bom que foi assim. Uma delícia redescobrir por que é que a gente se apaixonou um dia, quando o relacionamento já caiu na rotina.
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Vida expatriada | Etiquetado: curiosidade, Londres, rotina, turismo |
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Escrito por Mrs G
Quinta-feira, Agosto 27, 2009
Fui abençoada, no passado, com grandes amizades no meu local de trabalho. Por conta disso, era fácil equilibrar a vida social com o tempo na caverna que me é tão indispensável à sobrevivência: bastava aparecer na redação, algo que eu estava sendo paga para fazer de qualquer forma, e pronto — socialização consumada.
Sím, nós tínhamos (um pouco de) vida coletiva fora daquele prédio, mas essa era mais a exceção do que a regra. Afinal, passávamos um número estúpido de horas respirando o mesmo ar de segunda a sexta. Não só trabalhando, é claro. Almoçando, jantando, fofocando, fumando, tomando café, fazendo a unha e, até, vendo novela. Sair pra beber era um bônus, não um item necessário para que a amizade pudesse existir.
Aquela era acabou. Desde que saí do Brasil, minhas amizades presenciais se dividem em três grupos:
- Uma turma cuja população flutua entre oito e 12 indivíduos; nos encontramos cerca de uma vez por mês em eventos de longa duração envolvendo quantidades assustadoras de bebida.
- Casais que moram longe, com quem passamos fins de semana espaçados aqui e ali, consumindo quantidades assustadoras de bebida.
- Ex-colegas de trabalho, agrupados e avulsos; o programa básico é happy hour que se estende até o pub fechar – depois de ingerirmos quantidades assustadoras de bebida.
Verdade seja dita, eu me forço a ver gente com mais frequência do que a minha vontade de sair manda. Meu grau de interação ideal com o mundo é aquele que descrevi ali em cima, que deixa para mim mesma um mínimo de tempo para recarregar a pilha. Mas vá lá, eu não quero virar uma ostra por completo, por isso me esforço. O problema é essa cultura de atolar a fuça em álcool em troca de uma vida social. O que faz mais mal à saúde, cirrose ou solidão?
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Corpo e mente, Trabalho, Vida expatriada | Etiquetado: amizade, álcool, cirrose, solidão, solitude, tempo, vida social |
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Escrito por Mrs G
Terça-feira, Agosto 25, 2009
Muitas decisões importantes tiveram de ser tomadas antes de Mr G e eu percorrermos de braços dados a distância entre o altar e a avenida Dr Arnaldo: onde iríamos morar, se teríamos contas conjuntas ou separadas, com que frequência veríamos a minha adorável família e aturaríamos a dele. E se teríamos uma TV.
O flatmate dele tinha uma, os meus também. Mas ao juntarmos as nossas escovas de dente (elétricas, ressalto, antes que alguém pense que somos um casal amish), resolvemos adotar o movimento ludita de leve — e viver sem a caixa mágica.
O plano era tão bonito que, ao ler esse parágrafo, peço que sonalizem (um visualizar auditivo!) a música-tema de Love Story. Nós iríamos ter conversas íntimas e/ou inteligentes à mesa. Não nos tornaríamos um daqueles casais que comem na frente da televisão. Seríamos um exemplo para os nossos amigos.
O ponto que deveríamos ter considerado é que a vida não se faz apenas de horas do jantar. Pessoas normais ocasionalmente acordam com várias horas de distância uma da outra num domingo. Também existem as noites em que um sai com os amigos/vai jogar futebol/trabalha até tarde e o outro fica em casa sozinho. E às vezes, simplesmente, você tem de admitir que não há felicidade plena sem Dexter.
Demorou para eu convencê-lo de que estava na hora de desistir do nosso ideal romântico e comprar uma TV. Fui acusada de trair a causa e de “não ter assunto”. (As if. Eu sou feita de assuntos, baby.) Mas aqui estamos. Quase dois anos depois e finalmente aderimos ao… er, hm, mundo real. E juro que ontem vi um sorrisinho nos lábios dele enquanto assistia ao seu programa humorístico favorito. Com o prato de comida no colo.
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Domesticidades | Etiquetado: casamento, cultura de massa, decisões, ideais, romantismo, televisão, TV |
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Escrito por Mrs G
Terça-feira, Agosto 18, 2009
Não é nenhuma obsessão com sutiãs, não, mas quero que vocês conheçam Amls, A Menina da Lingerie Sexy.
Toda segunda, quarta e sexta, a moça e eu montamos em bicicletas vizinhas para fazer spinning. Comecei há mais de duas semanas, mas foi só sexta passada que eu me dei conta de que Amls vestida é a mesma pessoa que Amls sem roupa.
Amls vestida é Betty A Feia; óculos catastróficos, roupas matronais, o cabelo um trapinho loiro caindo pelos ombros.
Amls sem roupa é uma mega gostosa de parar o trânsito emoldurada por retalhos espetaculares de renda preta.
O que fazem essas pequenas (minúsculas!) jóias escondidas sob vestidinhos cafonas?? Se o problema fosse falta de estilo ou de vaidade, o visual estaria completo com sutiãs de reforço e calcinhas bege, mas não. No vestiário, Amls é a personificação da deusa nórdica do sexo, quem quer que seja ela.
(Claro que o fato de ela desfilar/secar o cabelo/aplicar a maquiagem só de calcinha enquanto espera o hidratante secar ajuda a reforçar a imagem.)
Não acho que uma mulher sexy deva necessariamente se vestir para matar — e todo mundo já cansou de ouvir o clichê de que ‘as quietinhas são as piores’. Mas me surpreende que pelo menos o bom-gosto não chegue à camada de fora.
Sorte do cara que decidir investir enfrentar o look Betty. Vai ganhar de virada.
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Os outros, Pensando alto | Etiquetado: academia, Betty A Feia, bom-gosto, calcinhas, estilo, lingerie, mulheres, roupas, sexo, spinning, sutiãs, vestiário |
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Escrito por Mrs G
Sexta-Feira, Agosto 14, 2009
Eu juro que sei reconhecer dor e prazer, mesmo em quantidades mais sutis (mais o primeiro do que o segundo, 1, porque o meu limiar de dor é mínimo e 2, porque meu circuito de recompensa cerebral já sofreu certa dessensibilização com o passar dos anos).
Já conforto e seus tons de cinza são um mistério para mim. O fato ficou claro para mim essa semana, quando entrei em uma loja com um sutiã 36D e saí com uma sacola de novos modelitos em tamanho 34F depois de passar pelas mãos da mocinha do provador.
Para quem não está familiarizado com os tamanhos gringos, o número é a circunferência do peito, logo abaixo dos seios, em polegadas. A letra é o tamanho do bojo, que vai de A até só Deus sabe. Portanto, percebam que eu estava usando um sutiã cinco centímetros largo demais e dois tamanhos abaixo do correto na taça.
Aí você me pergunta, e, se não pergunta, deveria: como foi que eu nunca me dei conta de que o troço estava não apenas ligeiramente, mas completamente errado no meu corpo?
Porque eu não sei que nível de conforto esperar das coisas.
Se a coisa não chegar a causar sofrimento ou êxtase (e, convenhamos, quem é que já experimentou júbilo com o toque de um sutiã?!), eu simplesmente parto do princípio de que é aquele nível de (des)conforto é normal. Eu deveria ter estranhado o fato de o bicho subir pelas minhas costas durante o dia, não? Ou notado que meus peitos passavam mais tempo fora de casa do que dentro? Mas eu nunca questionei. Achei que todo mundo passasse pela mesma coisa. Uma idiossincrasia dos sutiãs.
É a mesma coisa com sapatos, com a ergonomia do meu computador e, confesso, com a vida de um modo em geral. Sentir um levíssimo trepidar no estômago quando se ouve uma certa voz — é normal, certo? Ou tem algo aí? Aquela quase imperceptível irritação com um outro alguém — todo mundo sente ou é um sentimento que eu preciso investigar?
Seria bom se houvesse uma mocinha do provador para os nossos sentimentos também.
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Corpo e mente, Pensando alto | Etiquetado: êxtase, conforto, dor, lingerie, prazer, sentimentos, sofrimento, sutiãs |
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Escrito por Mrs G