Viva a hipocondria

Começo

Sinto uma dor esquisita no seio. Marco uma consulta com o médico.

Fim

Médico diz que não preciso me preocupar. Todos vivem felizes para sempre.

Meio

Ligo para a clínica na terça-feira. Consigo um encaixe para quinta de manhã.

Passo a tarde de terça muda. À noite presenteio o marido com minhas reflexões. “Eu sei que às vezes eu reclamo da vida. Mas não quer dizer que eu queira morrer. Eu só quero que as coisas melhorem. Será que Deus entendeu errado?” Ou: “Se eu morrer, eu quero que você se case de novo e tenha filhos.”

Na quarta à tarde já pesquisei todos os tipos de reconstrução de mama disponíveis.

Passo a noite em claro. No dia seguinte chego para a consulta 15 minutos antes e quase tenho um ataque cardíaco na sala de espera.

Tenho uma crise de soluços explicando ao médico o que há de errado.

Médico ouve, questiona, examina e diz que não é nada. Respiro fundo e quase choro de alívio.

Mas ah, peraí, tem um caroço aqui (completamente desconectado da causa primeira da consulta). Respiro fundo e engasgo.

Sou indicada a um especialista.

Duas semanas separam as consultas. Nesse intervalo, ciclos diários se repetem: penso que vou morrer e entro em pânico; esqueço o assunto; penso que morrer tem suas vantagens; lembro que o índice de fatalidade de câncer de mama é baixo e desencano; pesquiso efeitos colaterais de radioterapia; esqueço o assunto; tenho uma ou duas conversas mórbidas com o Rob; vou dormir.

Chega o dia da consulta. Passo duas horas sendo levada de um lado pro outro de roupão rosa em uma clínica.

O ultrassom revela um cisto simples que não requer biópsia nem outras providências.

2 Respostas para “Viva a hipocondria”

  1. Carlos Alberto Teixeira Disse:

    Cisto não mata. O que mata é a preocupação.

    - c.a.t.

  2. Mrs G Disse:

    E não é mesmo?
    Beijocas!

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