Por cima do mar de mesas ela vê o céu. O dia é de um cinza lívido. De tempo em tempo, revezam-se o frio e a chuva, como se tentassem cobrir entre eles, com recursos partilhados, as horas esparramadas do dia.
Expectativas, fantasias, planos, profecias. Que diferença há entre uma e outra? No fim das contas, estão todas contidas nela. Confinadas. Por mais alto que grite o seu desejo, ninguém lá fora consegue escutá-lo. Ou, se o faz, não liga a mínima, porque no mundo há fome e guerra e morte e desgraça. O problema dela é apenas o futuro.
Dentro dela os pensamentos são um peixe morto levado a nadar pelo sopro do motor de ar. Idéias do que foi ou poderia ter sido. Dor pelo que poderia vir a ser. Um desgaste sofrido e inútil. Quer desligar o movimento e poder cair inerte.
Ela continua girando na superfície, os olhos revirando no meio do aguaceiro, rezando, em sussurro, por uma pane que tire o motor de circulação. Porém o motor é ela quem controla. O motor é ela. E são ela o frio e a chuva que escurecem seus próprios dias. Mas ela continua a girar, porque sua fé — estúpida, injustificada e contra todas as provas em contrário — é persistente como erva-daninha.
Segunda-feira, Julho 21, 2008 às 5:25 am |
lindo.
Segunda-feira, Julho 21, 2008 às 10:16 am |
Aaaah, adoro visitas novas e lisonjeiras!
Volte sempre!