Abaixo a liberdade

Se eu pudesse reformar o mundo, começaria tirando de circulação um dos presentes mais gregos jamais dados à humanidade: o livre-arbítrio. Não há nada mais escravizante do que a obrigação de assumir responsabilidade pelas próprias ações. Um investimento burro na bolsa. A carreira errada. Um voto desperdiçado. Um aborto amargo. Um crime que não compensa.

Arrependimento é um caralho, mas a ausência de livre-arbítrio livra a consciência. A culpa nunca é sua. Você nunca erra. Pense na adolescência: encontrar a imagem certa para mostrar ao mundo é questão de vida ou morte — mas, se por intervenção divina, você vai parar numa escola com uniforme obrigatório, você pode reclamar que o sistema não deixa você expressar a sua individualidade. E viva o cop-out.

Pois eis que, estando no epicentro da minha infelicidade profissional, acabo, ai de mim, vítima das circunstâncias. Vou ter de pedir demissão, porque assim quer a vida. E nunca vou precisar olhar pra trás e me arrepender, porque a decisão não foi minha.

(O resto da história, amanhã. Ainda tenho trabalho a fazer.)

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