A contagem regressiva para a viagem chegou naquele ponto em que cada semana demora um mês pra passar. As passagens foram marcadas, o empacotamento encontra-se em estado avançado e a maior parte das despedidas já passou. Agora, é esperar. O trabalho acaba na quinta. No fim de semana, Maracugina (sic) e sogra em quantidades proporcionais. O vôo sai segunda às 15h10 e, depois disso, é tudo um grande mistério. Mas sem sogra. Sem. So-gra.
Enquanto isso, o verão segue a toda, fritando a pele e derretendo o cérebro. Verão, aqui, é aquela época do ano em que todas as mulheres usam Havainas (as legítimas) pra trabalhar e acham que tudo bem. A temporada é sinônimo de baldes de Pimm’s, casamentos, sorveteiros em vans, pernas brancas — e outras partes normalmente mais privadas do corpo — à mostra nos parques públicos. Carros conversíveis surgem como enxame ao primeiro sinal de sol. Os pássaros cantam, a grama domina o mundo, o governo proíbe o uso de mangueiras.
Para mim, mais do que tudo, a estação é o que torna tolerável um dos mais insuportáveis hábitos ingleses: o almoço frio.
Todo mundo adora falar mal da cozinha inglesa, mas devo dizer que, depois de dois anos e meio morando na ilha, ainda não consegui me convencer de que o povo aqui come tão mal assim. Minto: come-se mal, sim, mas acredito que por opção. Londres, pelo menos, não difere de São Paulo em nada nesse quesito. Tem cardápio pra tudo o que é gosto, do mais trash kebab ao mais surreal mingau de lagostins, e comida de todas as nacionalidades possíveis. Se a comida inglesa típica não apetece, não faltam mesas que ofereçam alternativas mais sutis, mais saudáveis, mais ousadas. E se não está feliz, fogão, meu filho. Como em qualquer lugar do mundo. Como se arroz com feijão fosse a oitava maravilha do mundo, também.
O real problema da culinária local não é a culinária local, mas o desprezo que os locais parecem ter pela culinária antes das seis. Dita uma certa norma tácita que, na hora do almoço, em dia de semana, comem-se sanduíches. Wraps. Saladas de macarrão. Torta de carne de porco. Peão ou CEO, tanto faz — se não é almoço de negócios ou um luxo ocasional, os ingleses tiram seus repastos meridianos diretamente da geladeira.
Nos supermercados há prateleiras específicas para comes portáteis; ficam perto da porta, para economizar tempo. Além dos já citados “pratos principais”, há iogurtes com colherinha, pedaços de queijo em tamanho individual, pastéis indianos, mini-saladas de frutas, batatinhas. Ao redor dos escritórios, abundam cafés que servem esses e outros, er, quitutes pra levar, e até mesmo farmácias investem pesado no setor do almoço ambulante.
Pode-se argumentar que um alimento frio oferece as mesmas qualidades que a sua contraparte quente, mas meu estômago não se convence. Todo lanche tem gosto de improviso. Toda refeição fica com cara de piquenique.
Na minha equipe, eu sou vista como má influência porque arrasto os colegas pro pub uma vez por semana. Eu não sou louca por comida de pub — essa, sim, a típica comida gorda, nutricionalmente pobre e sem originalidade desta terra –, mas, como acaba sendo a minha única oportunidade de almoçar comida quente em dias úteis, abraço a chance com fúria. Fumacinha saindo do prato e comida servida à mesa são dois afagos psicológicos de que eu preciso.
Mas, no verão, tudo bem. Não ligo, e até gosto, de sentar num parque com as canelas pálidas à mostra e me espalhar pela grama fofa enquanto como meu lanche e um sorvete.
Pelo menos até segunda-feira.
Quarta-feira, Julho 30, 2008 às 12:00 am |
Se vc acha que come mal na Terra da Rainha, espere pra por os pés (e o estômago) na do Tio Sam. De toda a experiência que tive – e olhe que fiz compras em supermercado e tudo – o pão tem gosto de perfume, e as frutas não tem gosto de nada. As maçãs são lindas de vermelhas, mas têm gosto de isopor.
Acho que o problema da impressão que existe sobre a culinária na inglesa é mais ou menos comparável à que se tem sobre o Brasil só ter mulata com a bunda de fora. São todas frutos de um tanto de ignorância, não?
Quarta-feira, Julho 30, 2008 às 11:25 am |
Cartoni, encontrei sanduíches geniais em farmácias por essas bandas. Ou melhor, por aquelas bandas, já que a partida foi anteontem. Como foi a chegada?
Quinta-feira, Julho 31, 2008 às 9:43 am |
Não posso falar nada porque sou fanática por sanduíche-de-farmácia (os da Boots especialmente) e de comidas-portáteis da Marks&Sparks (apesar do preço). Mas só encaro isso no verão, porque sanduba frio em pleno outubro/novembro devia ser considerado crime hediondo!
Quinta-feira, Julho 31, 2008 às 9:06 pm |
Mila!!!
Saudades, moça!!! Tenho novidades… ou será que já te contei? To esclerosando, vc sabe…
Manda um sinal de fumaça e conta pra qual porção da Nova Inglaterra vc vai…rs
Bjs!!!!