Rehab

Meu nome é Camila e eu sou uma leitora compulsiva.

O primeiro passo é admitir, não é? Aí está. Descoberta fresca, que veio à luz da maneira mais árdua: com um jejum que mal começou e já está me causando síndrome de abstinência.

Eu sou uma escrava da leitura.

O leitor chatonildo, que estava prestando atenção na aula quando deveria estar jogando truco, vai dizer que escravos somos todos. Yadda yadda. Não estou fazendo crítica social. Estou falando de vício. Tortura. Bola de ferro no pé.

Imagine você, caro leitor, que estou proibida de ler por uma semana. Longa história. O que importa é que, desta manhã até segunda-feira que vem, a única coisa que posso ler é o material do curso em questão, delineando as tarefas da semana. Nada de jornal, UOL, blogs, revistas. E, principalmente, livros.

Logo de manhã o problema já se impôs. Minha mãe ligou atrás de um dado que, óbvio, estava no rodapé de um documento escrito. Tive de ler um pedaço do texto, não teve jeito. Era uma matéria de urgência. Me perdoei a escorregada porque era a primeira coisa do dia, “não estava valendo ainda”.

Mas o dia corre. São 11h, agora, e já estou tendo uma semi-síncope. O que eu vou fazer comigo mesma por uma semana inteira sem ler?

Foi aí que me ocorreu: o meu tradicional “eu sou feliz com a minha própria companhia” é uma pataquada. Eu sou feliz, muito feliz, radiante, inebriada, até, na companhia de livros. Mas livros têm vida. Livros têm idéias. Livros são um condensado dos pensamentos de outras pessoas num formato compacto e fácil de transportar. Eu nem sei como me viro na minha própria companhia por períodos longos de tempo — porque raramente me dou a chance de viver assim.

Eu acho que nunca na vida fui ao banheiro sem leitura. Se o livro está me agarrando pelos cabelos, eu o levo até pra acompanhar o mais rápido xixi do mundo, e acabo ficando lá sentada, sem fazer nada, pra não interromper o fluxo da história.

Eu sempre tenho um livro na bolsa. Mesmo que saia de carro, o livro vem junto. Nunca se sabe o que se irá encontrar do lado de lá. Quando ando de transporte público, muitas vezes tenho um livro e uma revista, já que um é mais fácil de segurar que o outro, caso eu não consiga um assento; e às vezes os livros são dois, se um deles parecer estar chegando ao fim, ou se preciso de dois humores diferentes para o dia.

Se vamos viajar, preciso de um livro. Não leio no carro, mas o que fazer quando o marido vai ao banheiro, ou se ele adormecer antes de mim? Ler, é claro.

Outro dia, saímos de casa às pressas e acabei esquecendo minhas muletas. Chegando lá, não dava muito pra conversar. Havia um silêncio de hospital na sala de espera. Levamos olhadas feias por sussurrar. O jeito era calar a boca. Sem livro! Sem revista! Levantei e peguei uma pilha de folhetos explicando como pedir benefício do governo se você é mãe solteira ou deficiente físico. E os li, do começo ao fim. Provavelmente, o equivalente de um alcoólatra beber perfume na falta de uísque.

E não é só a falta de livros que mata. Meu computador já apitou 17 vezes na última hora anunciando novos emails que eu não posso abrir. (Desliguei o som, mas tem um maldito pop-up que me salta na cara.) Não posso estudar. Não posso pesquisar informações no Google. Não posso nem consultar as malditas páginas amarelas. É uma vida impossível.

Mas posso escrever. E a idéia do jejum é justamente essa: parar de entupir as veias com as palavras dos outros para deixar que as suas circulem. Pelo tamanho desse choramingo, vejo que já está fazendo efeito. Mas não sem calafrios.

4 Respostas para “Rehab”

  1. Anna C. Disse:

    Entendo o seu drama. Mesmo. Eu sou do tipo que lê inclusive rótulos de xampu no banheiro (e que tem lordose de tanto carregar livros pesados em bolsas impróprias).

    Agora, que diabo de curso é esse que te obriga a ficar sem ler por uma semana?

  2. Mograbi Disse:

    tá fazendo curso para liberar a criatividade e escrever seu livro?
    indicou-me o remédio e o está tomando por conta propria, certo?
    me avisa se der certo

  3. Renata Disse:

    Dúvidas:
    Você pode ler o seu post depois de escrevê-lo?
    E os comentários?
    ;)

  4. Mrs G Disse:

    Haha, não li os comentários, mas confesso que editei o post :P

    O curso é esse mesmo – pra desbloquear a criatividade. Sabe aquele seu post sobre vida de artista, Anna? É remédio praquele mesmo mal… de que eu também sofro!

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