Fui abençoada, no passado, com grandes amizades no meu local de trabalho. Por conta disso, era fácil equilibrar a vida social com o tempo na caverna que me é tão indispensável à sobrevivência: bastava aparecer na redação, algo que eu estava sendo paga para fazer de qualquer forma, e pronto — socialização consumada.
Sím, nós tínhamos (um pouco de) vida coletiva fora daquele prédio, mas essa era mais a exceção do que a regra. Afinal, passávamos um número estúpido de horas respirando o mesmo ar de segunda a sexta. Não só trabalhando, é claro. Almoçando, jantando, fofocando, fumando, tomando café, fazendo a unha e, até, vendo novela. Sair pra beber era um bônus, não um item necessário para que a amizade pudesse existir.
Aquela era acabou. Desde que saí do Brasil, minhas amizades presenciais se dividem em três grupos:
- Uma turma cuja população flutua entre oito e 12 indivíduos; nos encontramos cerca de uma vez por mês em eventos de longa duração envolvendo quantidades assustadoras de bebida.
- Casais que moram longe, com quem passamos fins de semana espaçados aqui e ali, consumindo quantidades assustadoras de bebida.
- Ex-colegas de trabalho, agrupados e avulsos; o programa básico é happy hour que se estende até o pub fechar – depois de ingerirmos quantidades assustadoras de bebida.
Verdade seja dita, eu me forço a ver gente com mais frequência do que a minha vontade de sair manda. Meu grau de interação ideal com o mundo é aquele que descrevi ali em cima, que deixa para mim mesma um mínimo de tempo para recarregar a pilha. Mas vá lá, eu não quero virar uma ostra por completo, por isso me esforço. O problema é essa cultura de atolar a fuça em álcool em troca de uma vida social. O que faz mais mal à saúde, cirrose ou solidão?
Escrito por CG 