Mudaram as estações, nada mudou

terça-feira, dezembro 15, 2009

Sumida, eu? Não, queridos. Essa vista que vocês veem pela janela, mudando rapidamente de campos floridos para árvores avermelhadas para cinzentice geral, é nada além de um recurso cinematográfico usado para simbolizar a passagem do tempo quando não há nada acontecendo que valha linhas no script.

Três meses depois e ainda nada de relevante para contar, mas já que vocês estão aí, pipoca em mãos e esperando o desenrolar da coisa, aqui estou — para falar sobre a grande vantagem do inverno.

Ladies and gentlemen, o frio me faz me sentir atraente.

Surreal, considerando-se o quanto ando enchendo a cara de chocolate e afins. Mas eu acho que é uma combinação de fatores: usar cachecóis charmosos, a maquiagem permanecer intacta durante o dia, o perfume durar mais (e aqui a gente pode usar eau de parfum sem dó nem piedade), a sensação aconchegante de entrar num ambiente aquecido vindo de fora, com as bochechas coradas.

Beber quantidades maiores de vinho tinto também ajuda. E as blusas quentinhas escondem os excessos.

O verão só é uma estação sexy pra gente malhada perto da praia, desculpa. O resto de nós sua, se descabela e tem de usar roupas pouco lisonjeiras no ambiente urbano. Além do mais, cerveja é a mãe da peste pra barriga. (Eu nego tudo o que escrevi aqui.)

E acho que nem preciso brigar pra convencer ninguém de que é SEM NOÇÃO ter de vestir biquíni na mesma temporada em que comemos ceias de Natal e ano novo, certo?

Feliz inverno.


Enquanto isso, em uma nada cool Britannia

segunda-feira, julho 28, 2008

A contagem regressiva para a viagem chegou naquele ponto em que cada semana demora um mês pra passar. As passagens foram marcadas, o empacotamento encontra-se em estado avançado e a maior parte das despedidas já passou. Agora, é esperar. O trabalho acaba na quinta. No fim de semana, Maracugina (sic) e sogra em quantidades proporcionais. O vôo sai segunda às 15h10 e, depois disso, é tudo um grande mistério. Mas sem sogra. Sem. So-gra.

Enquanto isso, o verão segue a toda, fritando a pele e derretendo o cérebro. Verão, aqui, é aquela época do ano em que todas as mulheres usam Havainas (as legítimas) pra trabalhar e acham que tudo bem. A temporada é sinônimo de baldes de Pimm’s, casamentos, sorveteiros em vans, pernas brancas — e outras partes normalmente mais privadas do corpo — à mostra nos parques públicos. Carros conversíveis surgem como enxame ao primeiro sinal de sol. Os pássaros cantam, a grama domina o mundo, o governo proíbe o uso de mangueiras.

Para mim, mais do que tudo, a estação é o que torna tolerável um dos mais insuportáveis hábitos ingleses: o almoço frio.

Todo mundo adora falar mal da cozinha inglesa, mas devo dizer que, depois de dois anos e meio morando na ilha, ainda não consegui me convencer de que o povo aqui come tão mal assim. Minto: come-se mal, sim, mas acredito que por opção. Londres, pelo menos, não difere de São Paulo em nada nesse quesito. Tem cardápio pra tudo o que é gosto, do mais trash kebab ao mais surreal mingau de lagostins, e comida de todas as nacionalidades possíveis. Se a comida inglesa típica não apetece, não faltam mesas que ofereçam alternativas mais sutis, mais saudáveis, mais ousadas. E se não está feliz, fogão, meu filho. Como em qualquer lugar do mundo. Como se arroz com feijão fosse a oitava maravilha do mundo, também.

O real problema da culinária local não é a culinária local, mas o desprezo que os locais parecem ter pela culinária antes das seis. Dita uma certa norma tácita que, na hora do almoço, em dia de semana, comem-se sanduíches. Wraps. Saladas de macarrão. Torta de carne de porco. Peão ou CEO, tanto faz — se não é almoço de negócios ou um luxo ocasional, os ingleses tiram seus repastos meridianos diretamente da geladeira.

Nos supermercados há prateleiras específicas para comes portáteis; ficam perto da porta, para economizar tempo. Além dos já citados “pratos principais”, há iogurtes com colherinha, pedaços de queijo em tamanho individual, pastéis indianos, mini-saladas de frutas, batatinhas. Ao redor dos escritórios, abundam cafés que servem esses e outros, er, quitutes pra levar, e até mesmo farmácias investem pesado no setor do almoço ambulante.

Pode-se argumentar que um alimento frio oferece as mesmas qualidades que a sua contraparte quente, mas meu estômago não se convence. Todo lanche tem gosto de improviso. Toda refeição fica com cara de piquenique.

Na minha equipe, eu sou vista como má influência porque arrasto os colegas pro pub uma vez por semana. Eu não sou louca por comida de pub — essa, sim, a típica comida gorda, nutricionalmente pobre e sem originalidade desta terra –, mas, como acaba sendo a minha única oportunidade de almoçar comida quente em dias úteis, abraço a chance com fúria. Fumacinha saindo do prato e comida servida à mesa são dois afagos psicológicos de que eu preciso.

Mas, no verão, tudo bem. Não ligo, e até gosto, de sentar num parque com as canelas pálidas à mostra e me espalhar pela grama fofa enquanto como meu lanche e um sorvete.

Pelo menos até segunda-feira.


Sonho de gato, dia de cão

quarta-feira, julho 2, 2008

A minha viagem da nova casa pro trabalho, e de volta, leva duas horas. Quatro horas por dia quase perdidas, não fosse pela parte mais longa da jornada, que me permite um assento no trem e, portanto, leitura, por cerca de uma hora pra cada lado. Nos demais trechos eu alterno entre corridas até outras estações ou plataformas e um Espaço Individual de uns 40 centímetros quadrados dentro do metrô mais quente e superlotado da face da Terra (e sim, eu já andei na linha leste-oeste em São Paulo às 5h da tarde).

As vantagens de morar no meio do mato são que a casa é espaçosa e a vizinhança, silenciosa, as escolas da região são aparentemente ótimas (praqueles filhos que eu ainda não tenho, lembra?) e pelo mato em si — o ar é puro e temos um jardim amigo com gramado e arbustos e árvores e o gato da vizinha, que gosta de deitar no nosso canteiro de flores e dormir o dia inteiro. (A vida dos meus sonhos, tirando os insetos.)

Tendo realizado essa corrida dos infernos por duas semanas e meia, sentindo com uma raiva especial das pessoas imbecis com quem trabalho por esses dias e estando à beira de um ataque de nervos (vide os quatro últimos posts; aliás, vide esse blog inteiro), me dei de presente um dia de folga. Pensei em todas as horas desperdiçadas no forno do transporte público, na maneira indigna como volto para casa todos os dias, suada e descabelada, e decidi que hoje eu colocaria uma toalha na grama e passaria o dia lendo revistas ao sol e não fazendo nada.

Como era de se esperar, o tempo que faria as minhas idas e vindas mais humanas se materializou justamente quando eu não preciso dele. Está frio, chovendo e cinzento. Duvet day, então? Sim, seria a solução perfeita, se eu tivesse uma cama de verdade. Internet? Ainda não foi reconectada (serviço de primeiro mundo!), então para escrever aqui e checar meus emails tive de comprar créditos e acessar a rede sem fio local.

Obrigada, verão inglês, por adicionar mais um grau no meu insanômetro.


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