Abaixo a liberdade

Segunda-feira, Julho 21, 2008

Se eu pudesse reformar o mundo, começaria tirando de circulação um dos presentes mais gregos jamais dados à humanidade: o livre-arbítrio. Não há nada mais escravizante do que a obrigação de assumir responsabilidade pelas próprias ações. Um investimento burro na bolsa. A carreira errada. Um voto desperdiçado. Um aborto amargo. Um crime que não compensa.

Arrependimento é um caralho, mas a ausência de livre-arbítrio livra a consciência. A culpa nunca é sua. Você nunca erra. Pense na adolescência: encontrar a imagem certa para mostrar ao mundo é questão de vida ou morte — mas, se por intervenção divina, você vai parar numa escola com uniforme obrigatório, você pode reclamar que o sistema não deixa você expressar a sua individualidade. E viva o cop-out.

Pois eis que, estando no epicentro da minha infelicidade profissional, acabo, ai de mim, vítima das circunstâncias. Vou ter de pedir demissão, porque assim quer a vida. E nunca vou precisar olhar pra trás e me arrepender, porque a decisão não foi minha.

(O resto da história, amanhã. Ainda tenho trabalho a fazer.)


Verdes males

Terça-feira, Julho 1, 2008

Em tempos recentes fui acometida por um surto de affluenza, e só me dei conta depois de ler um livro sobre o assunto.

Críticas ao estilo e a seu método científico à parte, o trabalho tem o mérito de pôr o assunto na roda. Em sua tese, o autor demonstra que dinheiro não traz felicidade, mas não posto exatamente assim. O argumento é que a caça insana ao dinheiro transforma as pessoas em Tios Patinhas estressados e de mal com a vida.

O vírus da affluenza, ele define, têm vários sintomas. Você pode apresentar um só, ou todos, nos mais diferentes graus. São eles: obsessão com sucesso financeiro, preocupação com aparências, ansiedade social, busca por status, inveja do dinheiro alheio, desejo compulsivo por mais mais mais.

No meu caso, acho que tive (e ainda tenho) um pouco de cada. Não fiquei doente de cair, mas perturbada, sim. Pra vocês terem uma idéia, foi por causa disso que este Diário reapareceu na blogosfera. Eu estava lançando um projeto de enriquecimento e precisava de um meio para organizar as minhas idéias.

Não sei bem como começou. Só sei que, um belo dia, me dei conta de que estava passando oito horas por dia no trabalho para trazer X para casa, enquanto meus conhecidos, que haviam estudado tanto quanto eu e dedicavam-se igualmente, estavam ganhando 2X ou 3X. Só uma pobre coitada, professora, fugia à regra.

Eu sei que é de uma lentidão sem tamanho da minha parte perceber isso aos vinte e muito anos, já que disparidade salarial não é exatamente um assunto novo, e uns três ou quatro pensadores por aí já se puseram a discorrer sobre o assunto. Mas, como já contei por aqui, cresci em um ambiente familiar em que dinheiro realmente nunca foi assunto e prosperidade monetária não foi especialmente encorajada em mim e no meu irmão. Empregabilidade, sim, mas tanto faria se como enfermeira ou astronauta.

Em vez de agradecer aos céus por ter pais equilibrados, comecei a cultivar uma ganância tardia. E, como todo sentimento novo, ela veio meio desmedida e atrapalhada. Comecei a devorar notícias de negócios com três olhos abertos na expectativa de encontrar uma brecha para um empreendimento infalível. Passei a avaliar toda e qualquer carreira como um possível trampolim para uma vida mais endinheirada. Estava preparada para vender a alma por um dinheiro que, convenhamos, não está me fazendo falta.

Como foi que eu deixei de ser aquela pessoa despreocupada com o tamanho do meu salário para virar essa monstra interesseira, eu me perguntei, depois que comecei a me reconhecer, com certa dor, nas páginas do Oliver James.

Avaliação errada, cara.

Eu olhei para o problema da minha carreira e não soube identificar com precisão a fonte da minha angústia. Ganhar 3X (ou 10X, ou 5000X) me faria mais orgulhosa do meu emprego? Faria com que eu levantasse da cama mais ou menos na hora, em vez de ter de me arrastar pra estação atrasada e chorando quase todo santo dia? Tornaria a perspectiva de fazer o que faço hoje pelo resto da vida mais palatável? Não, não e não.

Foi aí que eu entendi quais eram, realmente, as incógnitas dessa questão. Número 1, um pesar doído pela perda do único trabalho prazeroso que realizei nos últimos muitos anos. Número 2, um sofrimento agudo por descobrir amarras novas em torno dos meus pulsos me impedindo de ir atrás de algo que tape esse buraco.

Reconhecer isso não resolve o meu problema. Eu continuo tão perdida quanto antes, senão mais, já que aquilo que havia vislumbrado como cura para o meu mal não vai fazer diferença alguma. Mas pelo menos posso parar de correr atrás da maldita cenoura enquanto não encontro uma saída de verdade.


Pai rico, filho pobre

Terça-feira, Abril 8, 2008

O Guardian saiu com uma matéria gigantesca ontem no caderno de mídia sobre o ofício jornalístico. Em resumo bem resumido, o artigo expõe o fato de que só famílias ricas formam jornalistas, porque os salários são uma merda e papai e mamãe precisam sustentar esses coitados por anos até que eles consigam parar em pé sozinhos. Não digam.

Meus pais teriam me incentivado a estudar absolutamente qualquer coisa que eu quisesse. Incitaram-me a encontrar o meu ‘chamado’, a lógica da família sendo que uma pessoa bem-sucedida é aquela que faz o que ama. Eles parecem acreditar tanto nisso que, por anos, eu comprei a coisa sem questionar. E, assim, escolhi minha carreira sem nem uma vezinha sequer espiar uma tabela de remuneração ou fazer qualquer pesquisa pra comparar expectativas salariais de, digamos, motoristas de perua e diplomatas. Não que eu fosse capaz de ser uma dessas coisas.

Foi só meia década depois de me formar que a minha ficha debilóide caiu. Em jornalismo, uns sete ou oito negos ganham fortunas. O resto de nós passará o resto de seus anos levando uma vidinha mais-ou-menos. (Excluem-se aqui aqueles que, por virtude de nascimento e/ou conjunção amorosa, beneficiam-se do pecúlio alheio.)

Não pensem que a minha inocência foi a de imaginar que eu poderia ser uma dos sete ou oito; não – eu simplesmente nunca nem pensei no assunto. Como se dinheiro não importasse. E hoje em dia isso me persegue.

Eu ressinto o fato de ganhar menos do que todas as pessoas com quem convivo fora do trabalho. Eu poderia ter virado médica, advogada, operadora da bolsa, engenheira. (OK, talvez não engenheira, com as minhas notas em matemática.) Mas não, fui atrás das palavras, que além de não pagarem o que eu mereço, já não me causam felicidade alguma. Algo há de ser feito.


Reinauguração, parte MDXCI

Segunda-feira, Abril 7, 2008

Há muito tempo estou querendo ressuscitar o blog. Venho adiando por medo, puro e simples, de que ninguém queira ler o que eu tenho para escrever. O que, provavelmente, é mesmo o caso.

Alguns pobres de vocês acompanham meus resmungos desde o primeiro Diário Intramuros, que inaugurei em 2001. Desde lá virei uma pessoa muito menos interessante. Deixei de ser mega-nerd, mega-azeda, mega-abraçadora-de-árvores, assistidora compulsiva do Warner Channel e outros adjetivos não necessariamente favoráveis, mas que faziam de mim ‘mim’.

Virei uma versão sem-graça de mim mesma. Tão poucos anos, se formos pensar, para tal abismo ter-se aberto entre nós. Mas há um motivo. Me desliguei do universo que habitava em tantos sentidos que me sinto vagando pelo mundo, com orgulho profissional abandonado, amizades quebradas, família distante e nenhuma idéia do que fazer comigo mesma.

Ou talvez eu esteja apenas ficando confusa com a idade. Acontece.

Mas mesmo os mais bestas têm algo a dizer. E no momento estou numa fase tão angustiada com o futuro que um tema parece formar-se diante de mim. Por isso, a volta ao fantástico mundo dos diários virtuais. Mantenho o nome não por constância, algo que me falta, mas por falta de criatividade, algo que abunda no momento. Bem-vindos.