As voltas do gigante

Segunda-feira, Junho 30, 2008

Pra quem cresceu achando que Retorno de Saturno era um nome hippie para histeria de mulheres pré-balzaquianas, estou afetada demais pela coisa, eu acho. Se bem que isso não prova nada — talvez eu seja apenas mais uma quase-trintona louca querendo pôr a culpa nos astros. De uma maneira ou de outra, os fatos são que 1) esse ano eu completo 28 e 2) esse ano tá foda.

Nas últimas três semanas apenas eu cheguei à conclusão de que quero: abandonar o jornalismo e virar tradutora em tempo integral; fazer uma pós em Lingüística; escrever um romance; largar tudo e virar psicanalista; lançar uma revista independente; parar de trabalhar para criar os meus ainda não existentes filhos; não ter filhos; ter filhos desde que possa criá-los junto da minha família no Brasil; ter filhos desde que eu possa criá-los em uma sociedade menos materialista; ter filhos desde que eu possa criá-los em qualquer lugar do mundo longe da minha sogra; abrir um negócio pontocom; terminar amizades que me fazem competitiva e louca; alimentar ainda mais amizades que me fazem competitiva e morrer louca tentando provar que eu ainda sou tudo aquilo que comecei a ser, e larguei; vender a casa e comprar uma caixa de sapatos em Londres; vender a casa e comprar um sítio; me jogar de uma ponte; me jogar de um prédio alto; me jogar de um avião.

Pra que lado estou pendendo? Nem idéia. Amanhã eu nem reconhecerei esses impulsos. Esse ano tá foda.


Um lar para chamar de meu

Sexta-Feira, Junho 13, 2008

Uma das minhas sagas dos últimos tempos está chegando ao fim. Esse fim de semana nos mudamos para a casa nova, de malas (quatro: duas minhas, uma dele e uma com ‘enxoval’) e umas poucas cuias (dois pratos, dois garfos, duas facas, um sortimento de canecas desparceiradas e minha caixa de produtos de limpeza, porque não é à toa que respondo por Bree Van de K… er, Hodge.)

Todos os nossos outros pertencem já foram, ao longo das últimas duas semanas, encaixotados e empilhados em um guarda-volumes. Presentes de casamento, livros, roupas, DVDs, artigos de papelaria. Eu, que me prezo de ser implacável no julgamento do que vale a pena ser guardado (quase nada, em geral), fiquei besta de ver quanta tralha fomos capazes de juntar. E agora tudo isso está fora de uso, por causa da outra mudança que acontecerá em breve (mais sobre isso, já sabem, depois).

Minha casa tem teto, mas de resto não tem nada. Minto: tem quartos, cozinha, salas, banheiros e um jardim fofo com peixes no tanque. O que já é alguma coisa. Pelo próximo mês e pouco, vamos morar nela feito squatters de luxo, mas não faz mal, porque ela é nossa. Ou pelo menos o é a dívida que a fará nossa ao final de 25 anos. Mas não faz mal, porque ela é nossa. Nossa, nossa, nossa.

Está achando que é muito barulho por uma hipoteca que vai durar a minha vida profissional inteira? Pois saiba que, aqui, chegar aos finalmentes da compra de uma casa é motivo pra comemoração, sim. O mercado imobiliário da Inglaterra é total casa da mãe Joanne, porque não tem lei que regule. Você pode acertar uma compra, pagar depósito, gastar uma pequena fortuna em inspeções, advogado e o escambau… e acabar sem casa. Qualquer uma das partes pode desistir até o segundo em que o contrato é assinado, o que pode levar tempo pra caralho e, no nosso caso, levou. Nove semanas e meia. E não foram de amor.

O detalhe é que essa é a quarta casa que nos pusemos a comprar. Começamos a busca em dezembro e pagamos todos os nossos pecados, passados e futuros, até essa compra finalmente sair. E, ironicamente, mal vamos entrar e logo vamos sair. Mas isso é assunto para outro dia. Por ora, um brinde à casa, que é nossa, nossa, nossa. Olha ela aí.


Sobrecarga e a arte de tagarelar sobre o nada

Quinta-feira, Maio 29, 2008

Tudo nessa vida é questão de hábito. Fazer a cama, meditar, tirar a maquiagem antes de dormir. Você desenvolve um ritual. Você cria um espaço para que a coisa aconteça. Você se força um pouquinho e quando vê aquilo virou parte do seu dia-a-dia. Possíveis exceções são limpar privada e pagar imposto. Mas escrever não foge à regra. E não escrever também não.

Porque o tempo é escasso e os afazeres, muitos, é fácil entrar numa rotina de ignorar as frases que se redigem na cabeça, em Verdana 10. Com o passar dos dias, perde-se a formatação. Logo os parágrafos viram bullet points. Palavras-chave rabiscadas. Símbolos taquigráficos. E aí, já era. Quando se vê, lá se foi uma semana sem que os monstrinhos saiam pra passear.

Mas monstros precisam de ar. Aí você tenta criar o espaço pro lazer deles de novo. Mas nem sempre dá. Quando sua empresa está virada do avesso tentando migrar para uma plataforma alienígena, por exemplo. Ou quando se está muito, mas muito atrasada mesmo, com os trabalhos de um curso que você resolveu fazer num momento de loucura. (Mais sobre isso depois.) Aí você, pra completar, compra uma casa. Sua primeira casa. (Mais sobre isso depois.) E, no meio disso tudo, começa a se preparar pra fazer as malas e mudar de ares mais uma vez. (Mais sobre isso depois.)

E, no fim das contas, tantos pensamentos se acumulam que você nem sabe por onde começar. E acaba escrevendo sobre a falta de tempo pra escrever. Ê, mundo cão.