Poker face

Sexta-Feira, Maio 29, 2009

Entrevistas de emprego não corroem os meus nervos. Negociações salariais, sim.

Meu trabalho atual começou como um frila fixo. Mês passado, soube que a vaga viraria permanente. Bom pra mim, certo? Não necessariamente. Somos um órgão público e, como tal, fazemos tudo da forma mais burocrática possível. Tive de preencher ficha de candidatura, passar por um processo formal de entrevistas com banca e até fazer teste.

A boa notícia é que me ofereceram o emprego. A má é que eu não estou inteiramente feliz com o salário. A pior ainda é que eu quero a vaga assim mesmo e sei que vou dizer sim – mas vou ter de jogar pôquer com a chefe durona se quiser arrancar uns dois tostões a mais.

Blefar me embrulha o estômago. E se as minhas mãos começarem a tremer? E se a segunda pessoa da fila estiver morrendo pra aceitar o trabalho por menos dinheiro? E se ela pagar (ou, nesse caso, não pagar) pra ver? E se, e se, e se?


Quem dá menos?

Quinta-feira, Dezembro 4, 2008

Eu decidi um tempo atrás que essa seria uma boa hora para tentar me estabelecer como frila. Afinal, enquanto estamos por aqui não precisamos nos preocupar com o financiamento da casa, que está alugada — o que me dá a flexibilidade de poder, aos poucos, fazer contatos e construir uma clientela. Com trabalho suficiente e regular, eu deixo de depender da geografia e posso dizer adeus a chefes e trens.

Tudo funciona muito bem na teoria, mas a prática está se mostrando um pouco mais difícil.

Talvez eu tenha perdido essa ‘evolução’ dos tempos, ou talvez essa moda não tenha chegado ainda ao Brasil, mas estou dando de cara, pela primeira vez, como o sistema de leilão de freelance. Funciona assim:

1. A empresa/editora/veículo publica o trabalho num ou mais bancos online, especificando suas necessidades. Por exemplo: “Revista americana procura jornalista para uma série de quatro reportagens especiais sobre baleias. 15 mil caracteres cada.”

2. Profissionais de qualquer lugar do mundo têm acesso à listagem e podem entrar na concorrência. John Smith, de Nova York, diz que entrega o material em seis semanas e que cobra USD 5 mil pelo pacote. Sandeep Patel, de Mumbai, pede USD 2 mil pelo serviço, com turnaround de um mês. Su Zhi Xiao, de Pequim, promete o trabalho em 15 horas, por USD 200. E se você ligar agora ele ainda joga umas camisetas no negócio.

3. Empresa/editora/veículo contrata Su Zhi Xiao.

4. Sandeep Patel não liga, porque recebeu uma oferta para dar suporte técnico por telefone para um provedor de internet britânico.

5. John Smith morre de fome.

Não digo que *todo mundo* esteja trabalhando assim, até porque ainda existem jornalistas vivos nesse país. Mas, à primeira vista, o cenário é sombrio. Quase chego a repensar chefes e trens.


Senhoras e senhores: com vocês, o gongo

Quarta-feira, Junho 18, 2008

Não sou uma pessoa otimista. Meu copo, em geral, está não apenas meio vazio como lascado nas bordas. Mas eu deveria ser. Porque, pra ser honesta, a vida raramente me deixa na mão.

Semana passada Andy tirou a equipe do sério de vez. Total última gota. (Estou obcecada com copos, hoje.) Nossa rotineira indignação virou fúria sanguinária. Exigimos um pega-pra-capar com toda a chefia.

Estávamos atrás de castração, esquartejamento, a cabeçorra do nego numa bandeja. E estávamos, as três, preparadas para pedir demissão there and then.

O que não esperávamos era o Andy furar a fila. Aviso-prévio de três malditos meses, mas demissão, ainda assim.

O problema com a vida é que suas reações são meio retardadas. A salvação sempre me pega pelo rabo, depois de muitas arranhadas na tampa da caixa. Mais uma vez tive de chegar ao limite antes de me jogarem a corda.

Vamulá, vida, mais agilidade da próxima vez.


Man flu e instinto assassino

Terça-feira, Maio 20, 2008

Andy está doente há dois dias. Dias úteis, corrijo – porque aparentemente a doença o aflige desde sábado, causando-lhe “sintomas de enxaqueca”, “incapacidade de controlar a temperatura corporal” e “cérebro tentando escapar pelos ouvidos”. Palavras dele, não minhas. Eu jamais diria uma coisa dessas, porque nem sabia que ele tinha um cérebro.

Desde segunda, também, a equipe toda está trabalhando em dobro graças a uma migração técnica gigantesca por que estamos passando. Curiosa mas não surpreendentemente, P e eu produzimos muito mais nesse tempo do que com a ‘ajuda’ do nosso chefe. Em geral, nossa rotina inclui algumas boas horas fiscalizando – e corrigindo – tudo aquilo em que ele mete os gordos dedos. Mas essa semana, não. Por dois gloriosos dias, ninguém ‘esqueceu’ uma etapa do processo de publicação, nenhum erro de gramática foi introduzido durante a edição de uma matéria, nenhum plágio teve de ser identificado e impedido antes que um advogado batesse na nossa porta. Foi um vislumbre místico da vida sem Andy.

Parte de mim já se tornou incapaz de sentir compaixão. Um peso morto é sempre melhor quando faz jus ao nome que leva. Estou pensando em ir pessoalmente dar uma força àquele lance do cérebro saindo pela orelha.


Mantenha distância

Segunda-feira, Maio 19, 2008

SH quer saber a quantas anda um projeto X do nosso site. Está tão interessado que me mandou um email sem nenhuma vaselina, nenhuma tentativa de fingir interesse pelo meu bem-estar, nem uma linhazinha de small talk, pedindo detalhes.

SH é meu ex-chefe do inferno (de quem eu, ultimamente, passei a sentir saudades relativas, dada a alternativa – but not really). Mr H saiu daqui em dezembro. Pediu as contas porque quis, e foi trabalhar num projeto do instituto dos contadores sei lá das quantas. O site onde eu trabalho é médico.

Agora alguém, por favor, me explique se puder por que é que essa pessoa mandaria um email para uma colega com quem jamais teve uma relação minimamente amigável, cinco meses depois de sair, para perguntar sobre o trabalho de uma empresa que nem opera no mesmo setor que a dele. Escapa à minha compreensão.

Apaguei o email sem responder, mas fiquei com o assunto na cabeça, porque me lembrei de uma outra anedota desta empresa. Uma semana antes de o seu primeiro dia de trabalho, Andy pediu a AB, o chefão, para ter uma reunião comigo. Apareceu aqui munido de prints do site atual e de mock-ups do novo projeto gráfico, e me enfiou numa salinha por três horas pra discutir estratégias editoriais. Repito: uma maldita semana antes de começar. Durante um dia de folga. Com sol lá fora e tudo o mais.

Pensa que acabou? Pois EN, braço-direito do chefão, sempre passa o último fim de semana de suas férias trabalhando. Afinal, emails acumulam-se durante a ausência de uma pessoa, ainda que ela tenha um Blackberry e responda a maioria das mensagens remotamente. Mas sempre sobra alguma coisinha pra resolver – e ele gosta de tirá-las da frente antes de voltar, pra poder recomeçar a todo vapor na segunda-feira. (E eu aqui achando que segundas-feiras pós-férias existiam justamente para se colocar a caixa de entrada em dia!)

Das duas, uma: ou esse lugar é uma fonte inesgotável de prazer para seus funcionários (ex, futuros e atuais, indistintamente), e eu, besta, estou perdendo parte da festa, ou estou cercada por um bando de losers que encontram, aqui, um ambiente acolhedor. Pior: estimulante. Fecundo. Contagioso. Para sua própria segurança, delete o endereço deste blog se eu começar a falar do meu emprego carinhosamente.