The “ano que vem eu faço 30 e do jeito que estou não fico” project

Quinta-feira, Agosto 6, 2009

Vidas precisam de orientação, rumo, objetivos. Sem isso a gente vaga. Sem isso a gente vira eu. E eu cansei de ser eu. Falo isso da maneira mais neutra, não-psicótica, não-depressiva, não-dramática possível — apenas uma constatação objetiva de que o meu eu atual não é algo de que eu me orgulho.

Provavelmente teria sido melhor pra minha imagem pública se eu simplesmente começasse a incorporar melhorias sem ter de dizer antes como foi que eu cheguei lá. Nego ia me achar superevoluída sem ter de tomar conhecimento da fase negra. Mas achei que vocês gostariam de saber por que é que comecei a acordar às 5h da manhã para poder escrever e ir à academia antes do trabalho. Não é loucura. É uma determinação quase obsessiva para não deixar que a mediocridade me engula.


A jornada do herói

Quinta-feira, Outubro 16, 2008

Me parece apropriado falar de uma história de naufrágio e sobrevivência nesse post que é quase uma ressuscitação do blog — de novo. Tudo bem que a história não é minha, mas do escritor hispano-canadense (ou algo assim) Yann Martel. E não é nova: foi contada há mais de meia década e todo mundo provavelmente já leu, por causa do prêmio e da acusação de plágio e tal. Mas tudo isso são detalhes, porque vou contar a minha história sobre a história. Chamemos esse pedaço de escrita de crítica.

O marido leu A Vida de Pi há anos e me disse que era bom. Eu provavelmente agradeci a dica e me esqueci completamente do assunto. Aí sábado nós fomos à biblioteca local e eu estava perambulando havia uma boa meia hora sem achar nada que me agradasse, quando vi quatro volumes do livro na estante. Peguei um pra folhear e fiquei tocada com o prefácio. Resolvi trazê-lo para casa e não me arrependi.

Vamos tirar logo a trama da frente, para podermos prosseguir: garoto indiano, que é hindu, cristão e muçulmano, perde a família quando o navio em que viajava afunda. Eles rumavam ao Canadá num cargueiro cheio de bichos, vindos do zoológico que a família acabara de fechar. Garoto é o único sobrevivente humano. Mas no seu barco salva-vidas vão parar também uma hiena, um orangotango, uma zebra e um tigre. E agora? Bem, o final é feliz e você já sabe isso do começo, porque ele reconta a sua experiência do Canadá; mas o tesão da história é como ela é contada.

No começo, foi enlevo. A narrativa é inteligente, sensível, filosófica, profundamente existencialista e cheia de cor. Mas só vê tudo isso quem quer (tirando a cor, que está ali para todo mundo ver). Na superfície está somente a aventura de uma personagem interessante vivendo a sinuca-de-bico que lhe cabe nessa vida. E por si só, a aventura é das boas.

Mas o livro termina de um jeito anticlimático. Se a história tivesse sido concluída no momento em que o barco chega em terra firme, esse post nem existiria. Minhas mãos estariam ocupadas aplaudindo. Mas a teimosia o levou a escrever mais um pouco. Uma emenda desnecessária que quer se passar pela parte “real” de uma obra que é inteiramente fictícia — e que matou, para mim, toda a magia. (Por assim dizer; não há magia no livro.)

Depois de passar quase 300 páginas comandando uma fábula fantástica, Yann Martel dá um tirinho no pé no último bloco — graças a Deus, curto. Como se quisesse desafiar o leitor que não mergulhou na fantasia, ele conta a mesma história (menino náufrago) de um jeito “convincente” (sai tigre, entra gente) e joga um “acredite na versão que quiser, mas não é mais legal com bichos? Que nem as parábolas religiosas”. Não precisava, porque o livro sozinho já havia cuidado de deixar isso claro, de prender o leitor, apesar da crescente impossibilidade. Em vez de sair no auge, deixou o palco num tom didático, infantil, bobo, inseguro.

Irritou a mim, também, chegar ao ponto final e descobrir que o prefácio é parte enganação. Ele fala da própria vida. Faz seus agradecimentos. Menciona sua viagem à Índia. Até aí, tudo verdade — até que ele conta como a história do livro nasceu e cita nomes, demonstrando que Pi Patel existe. Então o leitor, sem saber, acaba pego nesse truque baixo. Você fica achando que A Vida de Pi é baseado na vida do tal do Pi, com todas as licenças artísticas em campo, é claro.

Mas não — Pi Patel não é de carne e osso. E não faria diferença ele ser ou não, desde que o autor não tivesse mentido. Porque colocar esse tipo de informação no prefácio é pobre de espírito. O contador da história poderia ter dito a mesma coisa num prólogo — mas sem misturar a voz do narrador com a do escritor.

Martel cruzou a linha dos dois territórios porque queria ter certeza de que até o leitor mais tapado entendesse sua mensagem: “a realidade é como você a vê.” Ok, querido autor, obrigada, nós já havíamos entendido na oitava vez que você mencionou.

Mas literatura não precisa disso. Todo mundo sabe que histórias são parte vida, parte imaginação, e que nenhuma audiência sabe a proporção das partes. Todo mundo que abre uma porra de um romance sabe que o que vai encontrar ali é uma “estória”, como se costumava distinguir antigamente. Literatura não precisa dessas ilusões imbecis. E Yann Martel também não.

Aí vêm as minhas reações a isso tudo. A primeira foi desapontamento; eu tinha uma obra-prima em mãos e senti vontade de dar um soco no idiota que a estragou. A segunda foi alívio.

Eu estava achando A Vida de Pi tão bom, mas tão bom, que estava intimidada. Sentindo que nunca, jamais, em tempo algum, eu seria capaz de criar algo tão genial — e que seria para sempre atormentada pela minha inferioridade. (Sim, eu sou egocêntrica assim.)

Mas o escritor me fez um favor. Ao matar a lenda e trazer uma voz “realista” para dentro do livro, o próprio Martel passou do plano divino para o humano diante dos meus olhos. Ele, sim, é feito de carne e osso — e erra. (Na minha opinião, não necessariamente na do júri do Man Booker Prize.) O livro é, sim, genial — mas não em sua totalidade. E isso tirou um pouco da pressão que eu sinto cada vez que coloco minha caneta no papel. Uma lição para a perfeccionista em mim. Sua desdivinação me salvou num sentido simbolicamente religioso, aparentado com a própria moral do livro.

A saber, a parte emocionante do prefácio foi a sua confissão pública de fracassos passados: um livro que escreveu e a crítica ignorou, partindo seu coração; um segundo que se desfez em pó antes mesmo de ser publicado; a sua fome de vida, a gana de sobreviver e chegar do outro lado. Num certo sentido, a história de Pi Patel é a história do autor. Sua resiliência. Sua humanidade. E aprender essa humildade foi mais um capítulo da minha lição.


Oficina do diabo

Sexta-Feira, Setembro 12, 2008

Ando a rainha dos cursos. Técnicas de tradução. Aulas de desenho. Sessão de culinária marroquina. Workshop pacifista. Debate sobre homofobia. Arranjos florais. (Tô topando todas.)

Ando numa fase reflexiva. Enxergando fatos. Criando futuros. Analisando raivas. Resgatando antigas verdades. Repensando o tema da reprodução.

Ando só. Um isolamento às vezes sombrio, às vezes chato, às vezes desperdiçado, quase sempre criativo e nunca, nunca ressentido, porque sabe Deus quando virá o próximo.


Reinauguração, parte MDXCI

Segunda-feira, Abril 7, 2008

Há muito tempo estou querendo ressuscitar o blog. Venho adiando por medo, puro e simples, de que ninguém queira ler o que eu tenho para escrever. O que, provavelmente, é mesmo o caso.

Alguns pobres de vocês acompanham meus resmungos desde o primeiro Diário Intramuros, que inaugurei em 2001. Desde lá virei uma pessoa muito menos interessante. Deixei de ser mega-nerd, mega-azeda, mega-abraçadora-de-árvores, assistidora compulsiva do Warner Channel e outros adjetivos não necessariamente favoráveis, mas que faziam de mim ‘mim’.

Virei uma versão sem-graça de mim mesma. Tão poucos anos, se formos pensar, para tal abismo ter-se aberto entre nós. Mas há um motivo. Me desliguei do universo que habitava em tantos sentidos que me sinto vagando pelo mundo, com orgulho profissional abandonado, amizades quebradas, família distante e nenhuma idéia do que fazer comigo mesma.

Ou talvez eu esteja apenas ficando confusa com a idade. Acontece.

Mas mesmo os mais bestas têm algo a dizer. E no momento estou numa fase tão angustiada com o futuro que um tema parece formar-se diante de mim. Por isso, a volta ao fantástico mundo dos diários virtuais. Mantenho o nome não por constância, algo que me falta, mas por falta de criatividade, algo que abunda no momento. Bem-vindos.