Verbete do dia: Consultores de Recrutamento

Terça-feira, Fevereiro 24, 2009

Definição: Carnívoros sanguinários, também conhecidos como agentes de seleção ou recolocação. Pertencem à classe dos profissionais de RH, de quem herdam a inutilidade, a visão limitada e o gosto pela burocracia, mas apresentam importantes distinções. Enquanto as principais motivações dos RH-ianos são cortar gastos e proteger a empresa da influência maléfica dos funcionários, recrutadores têm como meta ganhar comissões (ver hábitos alimentares).

Outras de suas características marcantes podem ser explicadas pelo hibridismo desse animal, que é resultado de um cruzamento com corretores de imóveis. Com esses, os agentes de seleção compartilham a capacidade de mentir sem constrangimento e a atitude vendedora. Mas corretores costumam ligar para dizer se sua oferta foi aceita.

Hábitat: Vivem no limbo entre o mundo corporativo bullshit, onde gostariam de estar, e o universo do desemprego, onde provavelmente já estiveram, embora atualmente já não demonstrem sinais disso (como, por exemplo, compaixão pelos que ali habitam).

Hábitos alimentares: A espécie alimenta-se de dinheiro, mas aprecia também uma boa humilhação alheia, o que nem sempre trabalha a seu favor. Enquanto seu objetivo é conquistar as comissões mais altas possíveis, seus ganhos tendem a ser apenas medianos, pois gostam de baixar o futuro salário dos candidatos (em que suas comissões se baseiam). São capazes de grandes esforços para descobrir o mais mínimo dos salários que uma pessoa é capaz de aceitar — e aí oferecem 10% a menos.

Uma cortesia do Pequeno Dicionário Intramuros de Pestes, Vermes e Criaturas Daninhas.


Em busca do Dharma

Terça-feira, Fevereiro 10, 2009

A Crise, para mim, era que nem o homem do saco — uma coisa levemente assustadora, mas que você, na verdade, não leva muito a sério. Até que o furacão passou e levou embora muito, muito rapidamente a melhor coisa que me aconteceu em anos: a minha fuga perfeita para um canto quentinho e feliz do planeta, longe das correntes de vento e de loucura que estavam deixando a minha vida gélida.

Assim, estou de volta à Inglaterra. Numa casa provisória no meio do absoluto nada, com metade dos meus pertences num guarda-volumes e o restante voando por aí; sem emprego, sem internet, sem casaco de inverno, sem a cama de quase dois metros de largura à qual inevitavelmente me afeiçoei. E, de tudo, o que mais me faz falta é uma certa fortaleza emocional que eu na verdade nunca tive, aquela capacidade budista invejável de abrir mão de todo desejo e todo apego, porque são eles, e não as mudanças, que nos fazem arrancar os cabelos (metaforicamente; não cheguei nesse ponto, ainda).


Quem dá menos?

Quinta-feira, Dezembro 4, 2008

Eu decidi um tempo atrás que essa seria uma boa hora para tentar me estabelecer como frila. Afinal, enquanto estamos por aqui não precisamos nos preocupar com o financiamento da casa, que está alugada — o que me dá a flexibilidade de poder, aos poucos, fazer contatos e construir uma clientela. Com trabalho suficiente e regular, eu deixo de depender da geografia e posso dizer adeus a chefes e trens.

Tudo funciona muito bem na teoria, mas a prática está se mostrando um pouco mais difícil.

Talvez eu tenha perdido essa ‘evolução’ dos tempos, ou talvez essa moda não tenha chegado ainda ao Brasil, mas estou dando de cara, pela primeira vez, como o sistema de leilão de freelance. Funciona assim:

1. A empresa/editora/veículo publica o trabalho num ou mais bancos online, especificando suas necessidades. Por exemplo: “Revista americana procura jornalista para uma série de quatro reportagens especiais sobre baleias. 15 mil caracteres cada.”

2. Profissionais de qualquer lugar do mundo têm acesso à listagem e podem entrar na concorrência. John Smith, de Nova York, diz que entrega o material em seis semanas e que cobra USD 5 mil pelo pacote. Sandeep Patel, de Mumbai, pede USD 2 mil pelo serviço, com turnaround de um mês. Su Zhi Xiao, de Pequim, promete o trabalho em 15 horas, por USD 200. E se você ligar agora ele ainda joga umas camisetas no negócio.

3. Empresa/editora/veículo contrata Su Zhi Xiao.

4. Sandeep Patel não liga, porque recebeu uma oferta para dar suporte técnico por telefone para um provedor de internet britânico.

5. John Smith morre de fome.

Não digo que *todo mundo* esteja trabalhando assim, até porque ainda existem jornalistas vivos nesse país. Mas, à primeira vista, o cenário é sombrio. Quase chego a repensar chefes e trens.


A vida sem despertador

Quarta-feira, Agosto 20, 2008

Desemprego é um estado todo novo para mim. Sem chefe. Sem obrigações. Sem estresse. Sem deadlines. Acordar a hora que quiser (apesar de que, na minha idade, já não fico mais na cama depois das 10h nem com Lexotan). Passar o dia inteiro descalça. Ir pra piscina no meio da tarde. É a glória… e é estranho pra caralho.

Eu comecei com boas intenções: fiz uma tabela horária no Excel e planejei uma semana típica, com horário fixo pras refeições e pra outras atividades regulares, como exercício (boa menina que sou), estudos (o exame do DipTrans é em janeiro), aula de dança (de volta! yay!), trabalho voluntário (nada nas proximidades, mas oportunidades interessantes para trabalhar de casa).

Mas é difícil tentar organizar a vida quando tudo o que você faz é por opção. Que acontece se eu não for pra esteira hoje? Nada. Então vou me jogar no sofá e ler mais um pouquinho (umas 5 ou 6 horinhas, não mais). E o curso está em férias de verão, não tem pressa de estudar, tem? Vou gastar o resto do dia jogando conversa fora no MSN. O trabalho voluntário pode começar semana que vem, não pode? E por aí vai. Conexão expressa pro brejo.

Nem uma desempregada comum eu sou, porque não estou indo atrás de nada. Sabe aquela ansiedade que deveria haver para conseguir uma entrevista? Mandar 35 currículos por hora para qualquer lugar que diga ‘vagas’? Nada. Nix. Niente. Nothing.

Durante a minha única fase da lacuna entre empregos no passado, fiz frila até o umbigo alisar (expressão da minha mãe que, provavelmente, não foi concebida para ser utilizada nesse contexto) e mandei não 35, mas 70 currículos por hora, até estar com a minha carteira assinada de novo. (Figurativamente. Não assinaram a minha carteira.) Essa necessidade não existe, agora. Semana passada fiz uma pesquisinha de mercado, pra ver se conseguiria arrumar trabalho aqui por perto, e achei uma editora de revistas a dez minutos de casa. Com vagas. Em que isso mudou a minha vida? Em nada, porque não posso me candidatar até a bendita permissão sair. De volta ao nada.

E, ainda assim, chega o fim do dia e eu lembro que deveria ter preenchido um formulário X do meu cartão de crédito, ou que deveria ter ligado pra uma pessoa Y, e não tive tempo. Não tive tempo. Tem noção?! Como uma pessoa desempregada, que não está à procura de trabalho e está cabulando os estudos, pode não ter tempo? Mistérios do mundo. Acho que preciso empregar meu velho despertador de volta.