A jornada do herói

Quinta-feira, Outubro 16, 2008

Me parece apropriado falar de uma história de naufrágio e sobrevivência nesse post que é quase uma ressuscitação do blog — de novo. Tudo bem que a história não é minha, mas do escritor hispano-canadense (ou algo assim) Yann Martel. E não é nova: foi contada há mais de meia década e todo mundo provavelmente já leu, por causa do prêmio e da acusação de plágio e tal. Mas tudo isso são detalhes, porque vou contar a minha história sobre a história. Chamemos esse pedaço de escrita de crítica.

O marido leu A Vida de Pi há anos e me disse que era bom. Eu provavelmente agradeci a dica e me esqueci completamente do assunto. Aí sábado nós fomos à biblioteca local e eu estava perambulando havia uma boa meia hora sem achar nada que me agradasse, quando vi quatro volumes do livro na estante. Peguei um pra folhear e fiquei tocada com o prefácio. Resolvi trazê-lo para casa e não me arrependi.

Vamos tirar logo a trama da frente, para podermos prosseguir: garoto indiano, que é hindu, cristão e muçulmano, perde a família quando o navio em que viajava afunda. Eles rumavam ao Canadá num cargueiro cheio de bichos, vindos do zoológico que a família acabara de fechar. Garoto é o único sobrevivente humano. Mas no seu barco salva-vidas vão parar também uma hiena, um orangotango, uma zebra e um tigre. E agora? Bem, o final é feliz e você já sabe isso do começo, porque ele reconta a sua experiência do Canadá; mas o tesão da história é como ela é contada.

No começo, foi enlevo. A narrativa é inteligente, sensível, filosófica, profundamente existencialista e cheia de cor. Mas só vê tudo isso quem quer (tirando a cor, que está ali para todo mundo ver). Na superfície está somente a aventura de uma personagem interessante vivendo a sinuca-de-bico que lhe cabe nessa vida. E por si só, a aventura é das boas.

Mas o livro termina de um jeito anticlimático. Se a história tivesse sido concluída no momento em que o barco chega em terra firme, esse post nem existiria. Minhas mãos estariam ocupadas aplaudindo. Mas a teimosia o levou a escrever mais um pouco. Uma emenda desnecessária que quer se passar pela parte “real” de uma obra que é inteiramente fictícia — e que matou, para mim, toda a magia. (Por assim dizer; não há magia no livro.)

Depois de passar quase 300 páginas comandando uma fábula fantástica, Yann Martel dá um tirinho no pé no último bloco — graças a Deus, curto. Como se quisesse desafiar o leitor que não mergulhou na fantasia, ele conta a mesma história (menino náufrago) de um jeito “convincente” (sai tigre, entra gente) e joga um “acredite na versão que quiser, mas não é mais legal com bichos? Que nem as parábolas religiosas”. Não precisava, porque o livro sozinho já havia cuidado de deixar isso claro, de prender o leitor, apesar da crescente impossibilidade. Em vez de sair no auge, deixou o palco num tom didático, infantil, bobo, inseguro.

Irritou a mim, também, chegar ao ponto final e descobrir que o prefácio é parte enganação. Ele fala da própria vida. Faz seus agradecimentos. Menciona sua viagem à Índia. Até aí, tudo verdade — até que ele conta como a história do livro nasceu e cita nomes, demonstrando que Pi Patel existe. Então o leitor, sem saber, acaba pego nesse truque baixo. Você fica achando que A Vida de Pi é baseado na vida do tal do Pi, com todas as licenças artísticas em campo, é claro.

Mas não — Pi Patel não é de carne e osso. E não faria diferença ele ser ou não, desde que o autor não tivesse mentido. Porque colocar esse tipo de informação no prefácio é pobre de espírito. O contador da história poderia ter dito a mesma coisa num prólogo — mas sem misturar a voz do narrador com a do escritor.

Martel cruzou a linha dos dois territórios porque queria ter certeza de que até o leitor mais tapado entendesse sua mensagem: “a realidade é como você a vê.” Ok, querido autor, obrigada, nós já havíamos entendido na oitava vez que você mencionou.

Mas literatura não precisa disso. Todo mundo sabe que histórias são parte vida, parte imaginação, e que nenhuma audiência sabe a proporção das partes. Todo mundo que abre uma porra de um romance sabe que o que vai encontrar ali é uma “estória”, como se costumava distinguir antigamente. Literatura não precisa dessas ilusões imbecis. E Yann Martel também não.

Aí vêm as minhas reações a isso tudo. A primeira foi desapontamento; eu tinha uma obra-prima em mãos e senti vontade de dar um soco no idiota que a estragou. A segunda foi alívio.

Eu estava achando A Vida de Pi tão bom, mas tão bom, que estava intimidada. Sentindo que nunca, jamais, em tempo algum, eu seria capaz de criar algo tão genial — e que seria para sempre atormentada pela minha inferioridade. (Sim, eu sou egocêntrica assim.)

Mas o escritor me fez um favor. Ao matar a lenda e trazer uma voz “realista” para dentro do livro, o próprio Martel passou do plano divino para o humano diante dos meus olhos. Ele, sim, é feito de carne e osso — e erra. (Na minha opinião, não necessariamente na do júri do Man Booker Prize.) O livro é, sim, genial — mas não em sua totalidade. E isso tirou um pouco da pressão que eu sinto cada vez que coloco minha caneta no papel. Uma lição para a perfeccionista em mim. Sua desdivinação me salvou num sentido simbolicamente religioso, aparentado com a própria moral do livro.

A saber, a parte emocionante do prefácio foi a sua confissão pública de fracassos passados: um livro que escreveu e a crítica ignorou, partindo seu coração; um segundo que se desfez em pó antes mesmo de ser publicado; a sua fome de vida, a gana de sobreviver e chegar do outro lado. Num certo sentido, a história de Pi Patel é a história do autor. Sua resiliência. Sua humanidade. E aprender essa humildade foi mais um capítulo da minha lição.


Das incongruências do matrimônio

Quarta-feira, Junho 25, 2008

Casamento é divertido, quentinho e faz bem pra saúde, mas nem tudo é perfeito, como é de conhecimento geral. Saia por aí perguntando e ouvirá preleções interessantes sobre a divisão dos afazeres domésticos, a administração das finanças, o regime sexual, a educação da cria.

Do alto das minhas bodas de oito meses, ainda não deparei com esses obstáculos. (Ou não mais, depois de treinar o marido a botar o lixo pra fora.) Apesar disso, não estou isenta de dificuldades. Pessoalmente, minhas picuinhas com essa milenar instituição social são duas: minha sogra e a escassez de Espaço Individual.

A velha é ruim pra caralho, vai durar pra sempre. Ou seja, não há nada que eu possa fazer a esse respeito, a não ser rezar e sentir pena de mim mesma. Mas pelo Espaço Individual (assim mesmo, com maiúsculas), é possível lutar.

Na minha casa nós tomamos café da manhã juntos, cozinhamos juntos, vemos TV (er, DVDs no computador, porque não temos TV) juntos, lemos na cama juntos. O que é uma delícia 99% do tempo. Mas as minhas células eremitas choram de saudade daqueles momentos de absoluta solidão em que eu podia tomar café, cozinhar, ver filmes e ler em perfeito silêncio. Não que a solitude mude essas atividades de maneira prática – é mais uma sensação de estar em retiro espiritual. Só eu e mim mesma, e Deus (ou Deusa. Ou deuses. Sei lá eu).

Foi por isso que, quando Mr G disse que iria viajar nesse último fim de semana para a despedida de solteiro de um amigo, botei um círculo vermelho no calendário e comecei a contagem regressiva: 180 dias, 179, 178… Me preparei adequadamente. Fiz reserva num hotel spa, botei montes de leituras na mala.

E sábado foi mesmo um dia iluminado.

No domingo eu não via a hora de ele voltar pra casa.

Oito meses e o Espaço Individual já não é mais o mesmo.


Viva a hipocondria

Quinta-feira, Abril 10, 2008

Começo

Sinto uma dor esquisita no seio. Marco uma consulta com o médico.

Fim

Médico diz que não preciso me preocupar. Todos vivem felizes para sempre.

Meio

Ligo para a clínica na terça-feira. Consigo um encaixe para quinta de manhã.

Passo a tarde de terça muda. À noite presenteio o marido com minhas reflexões. “Eu sei que às vezes eu reclamo da vida. Mas não quer dizer que eu queira morrer. Eu só quero que as coisas melhorem. Será que Deus entendeu errado?” Ou: “Se eu morrer, eu quero que você se case de novo e tenha filhos.”

Na quarta à tarde já pesquisei todos os tipos de reconstrução de mama disponíveis.

Passo a noite em claro. No dia seguinte chego para a consulta 15 minutos antes e quase tenho um ataque cardíaco na sala de espera.

Tenho uma crise de soluços explicando ao médico o que há de errado.

Médico ouve, questiona, examina e diz que não é nada. Respiro fundo e quase choro de alívio.

Mas ah, peraí, tem um caroço aqui (completamente desconectado da causa primeira da consulta). Respiro fundo e engasgo.

Sou indicada a um especialista.

Duas semanas separam as consultas. Nesse intervalo, ciclos diários se repetem: penso que vou morrer e entro em pânico; esqueço o assunto; penso que morrer tem suas vantagens; lembro que o índice de fatalidade de câncer de mama é baixo e desencano; pesquiso efeitos colaterais de radioterapia; esqueço o assunto; tenho uma ou duas conversas mórbidas com o Rob; vou dormir.

Chega o dia da consulta. Passo duas horas sendo levada de um lado pro outro de roupão rosa em uma clínica.

O ultrassom revela um cisto simples que não requer biópsia nem outras providências.