Me parece apropriado falar de uma história de naufrágio e sobrevivência nesse post que é quase uma ressuscitação do blog — de novo. Tudo bem que a história não é minha, mas do escritor hispano-canadense (ou algo assim) Yann Martel. E não é nova: foi contada há mais de meia década e todo mundo provavelmente já leu, por causa do prêmio e da acusação de plágio e tal. Mas tudo isso são detalhes, porque vou contar a minha história sobre a história. Chamemos esse pedaço de escrita de crítica.
O marido leu A Vida de Pi há anos e me disse que era bom. Eu provavelmente agradeci a dica e me esqueci completamente do assunto. Aí sábado nós fomos à biblioteca local e eu estava perambulando havia uma boa meia hora sem achar nada que me agradasse, quando vi quatro volumes do livro na estante. Peguei um pra folhear e fiquei tocada com o prefácio. Resolvi trazê-lo para casa e não me arrependi.
Vamos tirar logo a trama da frente, para podermos prosseguir: garoto indiano, que é hindu, cristão e muçulmano, perde a família quando o navio em que viajava afunda. Eles rumavam ao Canadá num cargueiro cheio de bichos, vindos do zoológico que a família acabara de fechar. Garoto é o único sobrevivente humano. Mas no seu barco salva-vidas vão parar também uma hiena, um orangotango, uma zebra e um tigre. E agora? Bem, o final é feliz e você já sabe isso do começo, porque ele reconta a sua experiência do Canadá; mas o tesão da história é como ela é contada.
No começo, foi enlevo. A narrativa é inteligente, sensível, filosófica, profundamente existencialista e cheia de cor. Mas só vê tudo isso quem quer (tirando a cor, que está ali para todo mundo ver). Na superfície está somente a aventura de uma personagem interessante vivendo a sinuca-de-bico que lhe cabe nessa vida. E por si só, a aventura é das boas.
Mas o livro termina de um jeito anticlimático. Se a história tivesse sido concluída no momento em que o barco chega em terra firme, esse post nem existiria. Minhas mãos estariam ocupadas aplaudindo. Mas a teimosia o levou a escrever mais um pouco. Uma emenda desnecessária que quer se passar pela parte “real” de uma obra que é inteiramente fictícia — e que matou, para mim, toda a magia. (Por assim dizer; não há magia no livro.)
Depois de passar quase 300 páginas comandando uma fábula fantástica, Yann Martel dá um tirinho no pé no último bloco — graças a Deus, curto. Como se quisesse desafiar o leitor que não mergulhou na fantasia, ele conta a mesma história (menino náufrago) de um jeito “convincente” (sai tigre, entra gente) e joga um “acredite na versão que quiser, mas não é mais legal com bichos? Que nem as parábolas religiosas”. Não precisava, porque o livro sozinho já havia cuidado de deixar isso claro, de prender o leitor, apesar da crescente impossibilidade. Em vez de sair no auge, deixou o palco num tom didático, infantil, bobo, inseguro.
Irritou a mim, também, chegar ao ponto final e descobrir que o prefácio é parte enganação. Ele fala da própria vida. Faz seus agradecimentos. Menciona sua viagem à Índia. Até aí, tudo verdade — até que ele conta como a história do livro nasceu e cita nomes, demonstrando que Pi Patel existe. Então o leitor, sem saber, acaba pego nesse truque baixo. Você fica achando que A Vida de Pi é baseado na vida do tal do Pi, com todas as licenças artísticas em campo, é claro.
Mas não — Pi Patel não é de carne e osso. E não faria diferença ele ser ou não, desde que o autor não tivesse mentido. Porque colocar esse tipo de informação no prefácio é pobre de espírito. O contador da história poderia ter dito a mesma coisa num prólogo — mas sem misturar a voz do narrador com a do escritor.
Martel cruzou a linha dos dois territórios porque queria ter certeza de que até o leitor mais tapado entendesse sua mensagem: “a realidade é como você a vê.” Ok, querido autor, obrigada, nós já havíamos entendido na oitava vez que você mencionou.
Mas literatura não precisa disso. Todo mundo sabe que histórias são parte vida, parte imaginação, e que nenhuma audiência sabe a proporção das partes. Todo mundo que abre uma porra de um romance sabe que o que vai encontrar ali é uma “estória”, como se costumava distinguir antigamente. Literatura não precisa dessas ilusões imbecis. E Yann Martel também não.
Aí vêm as minhas reações a isso tudo. A primeira foi desapontamento; eu tinha uma obra-prima em mãos e senti vontade de dar um soco no idiota que a estragou. A segunda foi alívio.
Eu estava achando A Vida de Pi tão bom, mas tão bom, que estava intimidada. Sentindo que nunca, jamais, em tempo algum, eu seria capaz de criar algo tão genial — e que seria para sempre atormentada pela minha inferioridade. (Sim, eu sou egocêntrica assim.)
Mas o escritor me fez um favor. Ao matar a lenda e trazer uma voz “realista” para dentro do livro, o próprio Martel passou do plano divino para o humano diante dos meus olhos. Ele, sim, é feito de carne e osso — e erra. (Na minha opinião, não necessariamente na do júri do Man Booker Prize.) O livro é, sim, genial — mas não em sua totalidade. E isso tirou um pouco da pressão que eu sinto cada vez que coloco minha caneta no papel. Uma lição para a perfeccionista em mim. Sua desdivinação me salvou num sentido simbolicamente religioso, aparentado com a própria moral do livro.
A saber, a parte emocionante do prefácio foi a sua confissão pública de fracassos passados: um livro que escreveu e a crítica ignorou, partindo seu coração; um segundo que se desfez em pó antes mesmo de ser publicado; a sua fome de vida, a gana de sobreviver e chegar do outro lado. Num certo sentido, a história de Pi Patel é a história do autor. Sua resiliência. Sua humanidade. E aprender essa humildade foi mais um capítulo da minha lição.
Escrito por Mrs G
Escrito por Mrs G
Escrito por Mrs G