Poker face

Sexta-Feira, Maio 29, 2009

Entrevistas de emprego não corroem os meus nervos. Negociações salariais, sim.

Meu trabalho atual começou como um frila fixo. Mês passado, soube que a vaga viraria permanente. Bom pra mim, certo? Não necessariamente. Somos um órgão público e, como tal, fazemos tudo da forma mais burocrática possível. Tive de preencher ficha de candidatura, passar por um processo formal de entrevistas com banca e até fazer teste.

A boa notícia é que me ofereceram o emprego. A má é que eu não estou inteiramente feliz com o salário. A pior ainda é que eu quero a vaga assim mesmo e sei que vou dizer sim – mas vou ter de jogar pôquer com a chefe durona se quiser arrancar uns dois tostões a mais.

Blefar me embrulha o estômago. E se as minhas mãos começarem a tremer? E se a segunda pessoa da fila estiver morrendo pra aceitar o trabalho por menos dinheiro? E se ela pagar (ou, nesse caso, não pagar) pra ver? E se, e se, e se?


Verbete do dia: Consultores de Recrutamento

Terça-feira, Fevereiro 24, 2009

Definição: Carnívoros sanguinários, também conhecidos como agentes de seleção ou recolocação. Pertencem à classe dos profissionais de RH, de quem herdam a inutilidade, a visão limitada e o gosto pela burocracia, mas apresentam importantes distinções. Enquanto as principais motivações dos RH-ianos são cortar gastos e proteger a empresa da influência maléfica dos funcionários, recrutadores têm como meta ganhar comissões (ver hábitos alimentares).

Outras de suas características marcantes podem ser explicadas pelo hibridismo desse animal, que é resultado de um cruzamento com corretores de imóveis. Com esses, os agentes de seleção compartilham a capacidade de mentir sem constrangimento e a atitude vendedora. Mas corretores costumam ligar para dizer se sua oferta foi aceita.

Hábitat: Vivem no limbo entre o mundo corporativo bullshit, onde gostariam de estar, e o universo do desemprego, onde provavelmente já estiveram, embora atualmente já não demonstrem sinais disso (como, por exemplo, compaixão pelos que ali habitam).

Hábitos alimentares: A espécie alimenta-se de dinheiro, mas aprecia também uma boa humilhação alheia, o que nem sempre trabalha a seu favor. Enquanto seu objetivo é conquistar as comissões mais altas possíveis, seus ganhos tendem a ser apenas medianos, pois gostam de baixar o futuro salário dos candidatos (em que suas comissões se baseiam). São capazes de grandes esforços para descobrir o mais mínimo dos salários que uma pessoa é capaz de aceitar — e aí oferecem 10% a menos.

Uma cortesia do Pequeno Dicionário Intramuros de Pestes, Vermes e Criaturas Daninhas.


De repente, Califórnia

Terça-feira, Julho 22, 2008

Aconteceu assim:

Os americanos que pagam as contas lá de casa, por intermédio do salário do marido, decidiram que precisavam dele in loco para um projeto X. A oportunidade era boa demais pra gente pensar em recusar: distância da sogra, casa, carro, baixo índice pluviométrico. Eu já estava de joelhos com a primeira oferta. O resto é lucro.

Por mais que eu odeie minha vida miserável nesse site do inferno, manter meu emprego e trabalhar de casa — como fiz ano passado, no Brasil, nos meses pós-cirúrgicos da mamma — nos proporcionaria a chance de juntar dinheiro durante esse tempo. E, quando negociei com a chefia, o plano foi aprovado.

Agora o carimbos da embaixada chegaram, e, com eles, a notícia de que trabalhar de casa (ainda que para uma empresa estrangeira, recebendo pagamento em moeda estrangeira, em banco estrangeiro) é ilegal pelo L2 — o visto de acompanhante que me cabe. Ao que tudo indica, sua alma passa a pertencer ao IRS assim que você pisa nos EUA. Se eu quiser trabalhar, tenho de pedir um work permit que leva 90 dias pra ser aprovado.

São três mesinhos apenas. Dá uma vontadezinha de burlar a lei. Afinal, quem poderia provar o que eu faço dentro da minha casa, sem dinheiro nenhum trocando de mãos no país? Mas, se tem uma coisa que eu aprendi com a Glória Perez, é que com a Migra não se brinca.

E foi assim que, por força das circunstâncias, acabei na posição de ter de largar o meu emprego. E não é culpa minha se eu tenho de ficar de pernas pro ar, por três meses, no ensolarado Orange County. A vida quis assim.


Verdes males

Terça-feira, Julho 1, 2008

Em tempos recentes fui acometida por um surto de affluenza, e só me dei conta depois de ler um livro sobre o assunto.

Críticas ao estilo e a seu método científico à parte, o trabalho tem o mérito de pôr o assunto na roda. Em sua tese, o autor demonstra que dinheiro não traz felicidade, mas não posto exatamente assim. O argumento é que a caça insana ao dinheiro transforma as pessoas em Tios Patinhas estressados e de mal com a vida.

O vírus da affluenza, ele define, têm vários sintomas. Você pode apresentar um só, ou todos, nos mais diferentes graus. São eles: obsessão com sucesso financeiro, preocupação com aparências, ansiedade social, busca por status, inveja do dinheiro alheio, desejo compulsivo por mais mais mais.

No meu caso, acho que tive (e ainda tenho) um pouco de cada. Não fiquei doente de cair, mas perturbada, sim. Pra vocês terem uma idéia, foi por causa disso que este Diário reapareceu na blogosfera. Eu estava lançando um projeto de enriquecimento e precisava de um meio para organizar as minhas idéias.

Não sei bem como começou. Só sei que, um belo dia, me dei conta de que estava passando oito horas por dia no trabalho para trazer X para casa, enquanto meus conhecidos, que haviam estudado tanto quanto eu e dedicavam-se igualmente, estavam ganhando 2X ou 3X. Só uma pobre coitada, professora, fugia à regra.

Eu sei que é de uma lentidão sem tamanho da minha parte perceber isso aos vinte e muito anos, já que disparidade salarial não é exatamente um assunto novo, e uns três ou quatro pensadores por aí já se puseram a discorrer sobre o assunto. Mas, como já contei por aqui, cresci em um ambiente familiar em que dinheiro realmente nunca foi assunto e prosperidade monetária não foi especialmente encorajada em mim e no meu irmão. Empregabilidade, sim, mas tanto faria se como enfermeira ou astronauta.

Em vez de agradecer aos céus por ter pais equilibrados, comecei a cultivar uma ganância tardia. E, como todo sentimento novo, ela veio meio desmedida e atrapalhada. Comecei a devorar notícias de negócios com três olhos abertos na expectativa de encontrar uma brecha para um empreendimento infalível. Passei a avaliar toda e qualquer carreira como um possível trampolim para uma vida mais endinheirada. Estava preparada para vender a alma por um dinheiro que, convenhamos, não está me fazendo falta.

Como foi que eu deixei de ser aquela pessoa despreocupada com o tamanho do meu salário para virar essa monstra interesseira, eu me perguntei, depois que comecei a me reconhecer, com certa dor, nas páginas do Oliver James.

Avaliação errada, cara.

Eu olhei para o problema da minha carreira e não soube identificar com precisão a fonte da minha angústia. Ganhar 3X (ou 10X, ou 5000X) me faria mais orgulhosa do meu emprego? Faria com que eu levantasse da cama mais ou menos na hora, em vez de ter de me arrastar pra estação atrasada e chorando quase todo santo dia? Tornaria a perspectiva de fazer o que faço hoje pelo resto da vida mais palatável? Não, não e não.

Foi aí que eu entendi quais eram, realmente, as incógnitas dessa questão. Número 1, um pesar doído pela perda do único trabalho prazeroso que realizei nos últimos muitos anos. Número 2, um sofrimento agudo por descobrir amarras novas em torno dos meus pulsos me impedindo de ir atrás de algo que tape esse buraco.

Reconhecer isso não resolve o meu problema. Eu continuo tão perdida quanto antes, senão mais, já que aquilo que havia vislumbrado como cura para o meu mal não vai fazer diferença alguma. Mas pelo menos posso parar de correr atrás da maldita cenoura enquanto não encontro uma saída de verdade.


Pai rico, filho pobre

Terça-feira, Abril 8, 2008

O Guardian saiu com uma matéria gigantesca ontem no caderno de mídia sobre o ofício jornalístico. Em resumo bem resumido, o artigo expõe o fato de que só famílias ricas formam jornalistas, porque os salários são uma merda e papai e mamãe precisam sustentar esses coitados por anos até que eles consigam parar em pé sozinhos. Não digam.

Meus pais teriam me incentivado a estudar absolutamente qualquer coisa que eu quisesse. Incitaram-me a encontrar o meu ‘chamado’, a lógica da família sendo que uma pessoa bem-sucedida é aquela que faz o que ama. Eles parecem acreditar tanto nisso que, por anos, eu comprei a coisa sem questionar. E, assim, escolhi minha carreira sem nem uma vezinha sequer espiar uma tabela de remuneração ou fazer qualquer pesquisa pra comparar expectativas salariais de, digamos, motoristas de perua e diplomatas. Não que eu fosse capaz de ser uma dessas coisas.

Foi só meia década depois de me formar que a minha ficha debilóide caiu. Em jornalismo, uns sete ou oito negos ganham fortunas. O resto de nós passará o resto de seus anos levando uma vidinha mais-ou-menos. (Excluem-se aqui aqueles que, por virtude de nascimento e/ou conjunção amorosa, beneficiam-se do pecúlio alheio.)

Não pensem que a minha inocência foi a de imaginar que eu poderia ser uma dos sete ou oito; não – eu simplesmente nunca nem pensei no assunto. Como se dinheiro não importasse. E hoje em dia isso me persegue.

Eu ressinto o fato de ganhar menos do que todas as pessoas com quem convivo fora do trabalho. Eu poderia ter virado médica, advogada, operadora da bolsa, engenheira. (OK, talvez não engenheira, com as minhas notas em matemática.) Mas não, fui atrás das palavras, que além de não pagarem o que eu mereço, já não me causam felicidade alguma. Algo há de ser feito.