Man flu e instinto assassino

Terça-feira, Maio 20, 2008

Andy está doente há dois dias. Dias úteis, corrijo – porque aparentemente a doença o aflige desde sábado, causando-lhe “sintomas de enxaqueca”, “incapacidade de controlar a temperatura corporal” e “cérebro tentando escapar pelos ouvidos”. Palavras dele, não minhas. Eu jamais diria uma coisa dessas, porque nem sabia que ele tinha um cérebro.

Desde segunda, também, a equipe toda está trabalhando em dobro graças a uma migração técnica gigantesca por que estamos passando. Curiosa mas não surpreendentemente, P e eu produzimos muito mais nesse tempo do que com a ‘ajuda’ do nosso chefe. Em geral, nossa rotina inclui algumas boas horas fiscalizando – e corrigindo – tudo aquilo em que ele mete os gordos dedos. Mas essa semana, não. Por dois gloriosos dias, ninguém ‘esqueceu’ uma etapa do processo de publicação, nenhum erro de gramática foi introduzido durante a edição de uma matéria, nenhum plágio teve de ser identificado e impedido antes que um advogado batesse na nossa porta. Foi um vislumbre místico da vida sem Andy.

Parte de mim já se tornou incapaz de sentir compaixão. Um peso morto é sempre melhor quando faz jus ao nome que leva. Estou pensando em ir pessoalmente dar uma força àquele lance do cérebro saindo pela orelha.


RH, escória da humanidade

Segunda-feira, Abril 21, 2008

Meus três tipos desfavoritos de gente: corretores de imóveis, mulheres sedentárias sem celulite e “profissionais de RH”.

Os dois primeiros serão poupados por hoje, porque estou boazinha. Os últimos me irritaram e vão pra forca.

Pra começo de conversa, nem nome de verdade essa profissão estúpida tem. Alguém por acaso diz que é “operador de jornalismo” ou “agente da medicina”? Não. Mas, em RH, é sempre assim. Diretor de RH, analista de RH, consultor de RH, a vaca do RH. E você fica achando que RH é um universo místico, uma inesgotável fonte de elementos preciosos, essenciais para o desenvolvimento, a sobrevivência e o conforto da civilização, algo que depende da manipulação de iniciados.

Hora da verdade: a assim chamada “gestão de recursos humanos” pertence à classe da “gestão de recursos financeiros”. O princípio básico é exatamente o mesmo – os recursos pertencem à empresa. Assim, podem ser auditados, investigados, inspecionados e manipulados como os “gestores” bem entenderem; alguns são vistos como investimentos, outros formam a base sólida da empresa, muitos são desperdiçados; empresas não gostam quando seus recursos vão parar na concorrência et cetera.

A última da empresa onde eu trabalho é uma medida para cortar o número de sickies. Um documento de seis páginas, sem contar os formulários anexos, foi distribuído hoje pela menina do RH. O propósito do calhamaço é revestir de corporate bullshit e uma burocracia horrenda um procedimento que costumava ser descomplicado – ficar doente, ligar pro chefe, melhorar, voltar a trabalhar. Simples.

Agora funciona assim:

  • O funcionário doente deve ligar para a firrrma até no máximo 9h30 da manhã avisando que está doente.
  • O recado deve ser dado ao chefe imediato ou ao RH, para quem a natureza da doença ser explicada, e uma previsão de retorno dada.
  • Colegas não podem ser usados como mensageiros. Se a ligação for feita antes de as pessoas acima chegarem, o funcionário deve gravar um recado ou mandar um email com telefone de contato. O chefe ou RH fará uma ligação, obrigatoriamente.
  • Recados deixados por familiares e amigos não serão aceitos a não ser que o funcionário esteja não apenas hospitalizado, mas impossibilitado de falar.
  • Caso o problema dure mais de um dia, relatórios telefônicos sobre o andamento da enfermidade são exigidos.
  • Ao retorno ao trabalho, o funcionário deve preencher um formulário e entregar ao RH, dando todo tipo de detalhe sobre o período de afastamento. Na seqüência, passará por uma entrevista com o chefe imediato, que deverá, por sua vez, preencher um outro formulário. Todos os documentos são arquivados nos registros do pobre infeliz para todo o infinito sempre.

Isso é só para coisinhas simples – uma diarréia, uma enxaqueca, uma gripe. Qualquer coisa que dure mais de 7 dias corridos envolve um processo que vocês não querem nem saber.

E essa é só mais uma gota no copo de peçonha do nosso RH. Por aqui, o clima é de total cuidado com a cuca, que a cuca te pega. Em janeiro, investiram libras pra caralho para instalar um sistema de ponto que marca não só nosso horário de entrada e saída, mas as idas ao banheiro também. Mês passado baniram todas as formas de messenger e instalaram um programa de comunicação interna cuja mensagem de abertura é “IT are watching you”.

E depois não sabem por que nego fica doente.