A labuta nossa de cada dia… ou não

Quinta-feira, Agosto 13, 2009

Eu tenho profundos respeito e admiração por pessoas que não trabalham em escritórios (redações inclusive). Porque a verdade é que nós, o povo atrás de um computador, podemos enrolar pra cacete. Mas certas ocupações por aí afora requerem um nível de vigor extraterrestre que a maioria de nós não tem.

Imagine que você é enfermeira em uma UTI. Se você está de ressaca, sem saco, com cólica, com tesão pelo gostoso do terceiro andar, foda-se você. O trabalho precisa ser feito. Não existe um ato equivalante a apertar Alt+Tab pra esconder a página do Facebook/site de decoração/email pessoal quando a sua chefe entra na sala. Se você não faz o seu trabalho direito, o paciente morre. Simples assim.

Não precisa envolver a vida de outra pessoa, não — às vezes, é simplesmente impossível matar tempo sem ser pego. Eu nem sempre enrolo na internet — eu também uso a técnica da flânerie. Bate-papo no bebedouro, café no meio da tarde, uma espiada no gostoso do terceiro andar. Coisas sem as quais o dia não passa. Mas se eu fosse caixa de supermercado, atriz de teatro ou fonoaudióloga, essas ferramentas não estariam disponíveis para mim. Teria de levar o show até o fim.

Diminuir o ritmo quase todo mundo pode. Não fazer praticamente nada por três dias seguidos é para poucos.

Essa semana minha cabeça está muito, muito longe daqui.


Poker face

Sexta-Feira, Maio 29, 2009

Entrevistas de emprego não corroem os meus nervos. Negociações salariais, sim.

Meu trabalho atual começou como um frila fixo. Mês passado, soube que a vaga viraria permanente. Bom pra mim, certo? Não necessariamente. Somos um órgão público e, como tal, fazemos tudo da forma mais burocrática possível. Tive de preencher ficha de candidatura, passar por um processo formal de entrevistas com banca e até fazer teste.

A boa notícia é que me ofereceram o emprego. A má é que eu não estou inteiramente feliz com o salário. A pior ainda é que eu quero a vaga assim mesmo e sei que vou dizer sim – mas vou ter de jogar pôquer com a chefe durona se quiser arrancar uns dois tostões a mais.

Blefar me embrulha o estômago. E se as minhas mãos começarem a tremer? E se a segunda pessoa da fila estiver morrendo pra aceitar o trabalho por menos dinheiro? E se ela pagar (ou, nesse caso, não pagar) pra ver? E se, e se, e se?


Pós-hibernação

Quinta-feira, Maio 28, 2009

Levei bronca, e com razão. A seca informacional nem faz justiça à quantidade de acontecimentos desde a minha última passagem por aqui.

Em geral, estive ocupada e enlouquecida: mudei de casa de novo; arrumei um emprego no começo de março; perdi, ganhei e recuperei amigos e encontrei umas boas e amestradíssimas sarnas para me coçar.

Aos poucos vou introduzindo detalhes sobre as novidades, mas, por ora, fiquem com o ensinamento do dia:

A raposa mais esperta e fugidia é quem faz a caça interessante. Mas não se iluda. O caçador quer a conquista, não a raposa. Não importa quão lustrosa ela seja.

You’re welcome.


Verbete do dia: Consultores de Recrutamento

Terça-feira, Fevereiro 24, 2009

Definição: Carnívoros sanguinários, também conhecidos como agentes de seleção ou recolocação. Pertencem à classe dos profissionais de RH, de quem herdam a inutilidade, a visão limitada e o gosto pela burocracia, mas apresentam importantes distinções. Enquanto as principais motivações dos RH-ianos são cortar gastos e proteger a empresa da influência maléfica dos funcionários, recrutadores têm como meta ganhar comissões (ver hábitos alimentares).

Outras de suas características marcantes podem ser explicadas pelo hibridismo desse animal, que é resultado de um cruzamento com corretores de imóveis. Com esses, os agentes de seleção compartilham a capacidade de mentir sem constrangimento e a atitude vendedora. Mas corretores costumam ligar para dizer se sua oferta foi aceita.

Hábitat: Vivem no limbo entre o mundo corporativo bullshit, onde gostariam de estar, e o universo do desemprego, onde provavelmente já estiveram, embora atualmente já não demonstrem sinais disso (como, por exemplo, compaixão pelos que ali habitam).

Hábitos alimentares: A espécie alimenta-se de dinheiro, mas aprecia também uma boa humilhação alheia, o que nem sempre trabalha a seu favor. Enquanto seu objetivo é conquistar as comissões mais altas possíveis, seus ganhos tendem a ser apenas medianos, pois gostam de baixar o futuro salário dos candidatos (em que suas comissões se baseiam). São capazes de grandes esforços para descobrir o mais mínimo dos salários que uma pessoa é capaz de aceitar — e aí oferecem 10% a menos.

Uma cortesia do Pequeno Dicionário Intramuros de Pestes, Vermes e Criaturas Daninhas.


A vida sem despertador

Quarta-feira, Agosto 20, 2008

Desemprego é um estado todo novo para mim. Sem chefe. Sem obrigações. Sem estresse. Sem deadlines. Acordar a hora que quiser (apesar de que, na minha idade, já não fico mais na cama depois das 10h nem com Lexotan). Passar o dia inteiro descalça. Ir pra piscina no meio da tarde. É a glória… e é estranho pra caralho.

Eu comecei com boas intenções: fiz uma tabela horária no Excel e planejei uma semana típica, com horário fixo pras refeições e pra outras atividades regulares, como exercício (boa menina que sou), estudos (o exame do DipTrans é em janeiro), aula de dança (de volta! yay!), trabalho voluntário (nada nas proximidades, mas oportunidades interessantes para trabalhar de casa).

Mas é difícil tentar organizar a vida quando tudo o que você faz é por opção. Que acontece se eu não for pra esteira hoje? Nada. Então vou me jogar no sofá e ler mais um pouquinho (umas 5 ou 6 horinhas, não mais). E o curso está em férias de verão, não tem pressa de estudar, tem? Vou gastar o resto do dia jogando conversa fora no MSN. O trabalho voluntário pode começar semana que vem, não pode? E por aí vai. Conexão expressa pro brejo.

Nem uma desempregada comum eu sou, porque não estou indo atrás de nada. Sabe aquela ansiedade que deveria haver para conseguir uma entrevista? Mandar 35 currículos por hora para qualquer lugar que diga ‘vagas’? Nada. Nix. Niente. Nothing.

Durante a minha única fase da lacuna entre empregos no passado, fiz frila até o umbigo alisar (expressão da minha mãe que, provavelmente, não foi concebida para ser utilizada nesse contexto) e mandei não 35, mas 70 currículos por hora, até estar com a minha carteira assinada de novo. (Figurativamente. Não assinaram a minha carteira.) Essa necessidade não existe, agora. Semana passada fiz uma pesquisinha de mercado, pra ver se conseguiria arrumar trabalho aqui por perto, e achei uma editora de revistas a dez minutos de casa. Com vagas. Em que isso mudou a minha vida? Em nada, porque não posso me candidatar até a bendita permissão sair. De volta ao nada.

E, ainda assim, chega o fim do dia e eu lembro que deveria ter preenchido um formulário X do meu cartão de crédito, ou que deveria ter ligado pra uma pessoa Y, e não tive tempo. Não tive tempo. Tem noção?! Como uma pessoa desempregada, que não está à procura de trabalho e está cabulando os estudos, pode não ter tempo? Mistérios do mundo. Acho que preciso empregar meu velho despertador de volta.