A vida sem despertador

Quarta-feira, Agosto 20, 2008

Desemprego é um estado todo novo para mim. Sem chefe. Sem obrigações. Sem estresse. Sem deadlines. Acordar a hora que quiser (apesar de que, na minha idade, já não fico mais na cama depois das 10h nem com Lexotan). Passar o dia inteiro descalça. Ir pra piscina no meio da tarde. É a glória… e é estranho pra caralho.

Eu comecei com boas intenções: fiz uma tabela horária no Excel e planejei uma semana típica, com horário fixo pras refeições e pra outras atividades regulares, como exercício (boa menina que sou), estudos (o exame do DipTrans é em janeiro), aula de dança (de volta! yay!), trabalho voluntário (nada nas proximidades, mas oportunidades interessantes para trabalhar de casa).

Mas é difícil tentar organizar a vida quando tudo o que você faz é por opção. Que acontece se eu não for pra esteira hoje? Nada. Então vou me jogar no sofá e ler mais um pouquinho (umas 5 ou 6 horinhas, não mais). E o curso está em férias de verão, não tem pressa de estudar, tem? Vou gastar o resto do dia jogando conversa fora no MSN. O trabalho voluntário pode começar semana que vem, não pode? E por aí vai. Conexão expressa pro brejo.

Nem uma desempregada comum eu sou, porque não estou indo atrás de nada. Sabe aquela ansiedade que deveria haver para conseguir uma entrevista? Mandar 35 currículos por hora para qualquer lugar que diga ‘vagas’? Nada. Nix. Niente. Nothing.

Durante a minha única fase da lacuna entre empregos no passado, fiz frila até o umbigo alisar (expressão da minha mãe que, provavelmente, não foi concebida para ser utilizada nesse contexto) e mandei não 35, mas 70 currículos por hora, até estar com a minha carteira assinada de novo. (Figurativamente. Não assinaram a minha carteira.) Essa necessidade não existe, agora. Semana passada fiz uma pesquisinha de mercado, pra ver se conseguiria arrumar trabalho aqui por perto, e achei uma editora de revistas a dez minutos de casa. Com vagas. Em que isso mudou a minha vida? Em nada, porque não posso me candidatar até a bendita permissão sair. De volta ao nada.

E, ainda assim, chega o fim do dia e eu lembro que deveria ter preenchido um formulário X do meu cartão de crédito, ou que deveria ter ligado pra uma pessoa Y, e não tive tempo. Não tive tempo. Tem noção?! Como uma pessoa desempregada, que não está à procura de trabalho e está cabulando os estudos, pode não ter tempo? Mistérios do mundo. Acho que preciso empregar meu velho despertador de volta.


As voltas do gigante

Segunda-feira, Junho 30, 2008

Pra quem cresceu achando que Retorno de Saturno era um nome hippie para histeria de mulheres pré-balzaquianas, estou afetada demais pela coisa, eu acho. Se bem que isso não prova nada — talvez eu seja apenas mais uma quase-trintona louca querendo pôr a culpa nos astros. De uma maneira ou de outra, os fatos são que 1) esse ano eu completo 28 e 2) esse ano tá foda.

Nas últimas três semanas apenas eu cheguei à conclusão de que quero: abandonar o jornalismo e virar tradutora em tempo integral; fazer uma pós em Lingüística; escrever um romance; largar tudo e virar psicanalista; lançar uma revista independente; parar de trabalhar para criar os meus ainda não existentes filhos; não ter filhos; ter filhos desde que possa criá-los junto da minha família no Brasil; ter filhos desde que eu possa criá-los em uma sociedade menos materialista; ter filhos desde que eu possa criá-los em qualquer lugar do mundo longe da minha sogra; abrir um negócio pontocom; terminar amizades que me fazem competitiva e louca; alimentar ainda mais amizades que me fazem competitiva e morrer louca tentando provar que eu ainda sou tudo aquilo que comecei a ser, e larguei; vender a casa e comprar uma caixa de sapatos em Londres; vender a casa e comprar um sítio; me jogar de uma ponte; me jogar de um prédio alto; me jogar de um avião.

Pra que lado estou pendendo? Nem idéia. Amanhã eu nem reconhecerei esses impulsos. Esse ano tá foda.


Lição de casa

Quinta-feira, Junho 26, 2008

Seres humanos mais desenvolvidos do que eu podem partir para a vida com programas de estudo para sanar suas dificuldades específicas. Eles identificam suas áreas deficientes, elaboram um plano de ação e podem continuar a viver, porque suas falhas não são completamente debilitantes. Fazem-nas sofrer, sim; tornam suas relações mais complicadas, também. Mas não os paralisam. Eles conseguem tocar a banda conforme assimilam aos poucos aquilo que têm de aprender.

Eu não.

Minha falta de senso pro básico da vida é tamanha que eu deveria ser impedida de tentar progredir para qualquer outra lição, da mesma maneira que você não aprende equações de terceiro grau antes de aprender a somar e subtrair. Algumas pessoas não aprendem equações de terceiro grau nunca e talvez tenham problemas com, er, qualquer que seja a aplicação prática das equações de terceiro grau. Mas elas podem ir ao supermercado com suas noções matemáticas mais simples, a aritmética.

Se a vida fosse um supermercado, eu voltaria pra casa com troco errado todo dia. Meu caso é pro Mobral da alfabetização emocional.

Assim, inspirada pelo programa de estudo da Lila, decidi investir na minha incapacidade também. E vou começar pela mais simplória das aritméticas. Quem sabe, um dia, eu possa aspirar a aprendizados mais avançados.

#1: A vida não é justa.

A vida pode ser um monte de coisas, mas justa ela não é. Não adianta espernear, apelar pros céus, chorar até os olhos caírem, se indignar. Just fucking get over it.


Pai rico, filho pobre

Terça-feira, Abril 8, 2008

O Guardian saiu com uma matéria gigantesca ontem no caderno de mídia sobre o ofício jornalístico. Em resumo bem resumido, o artigo expõe o fato de que só famílias ricas formam jornalistas, porque os salários são uma merda e papai e mamãe precisam sustentar esses coitados por anos até que eles consigam parar em pé sozinhos. Não digam.

Meus pais teriam me incentivado a estudar absolutamente qualquer coisa que eu quisesse. Incitaram-me a encontrar o meu ‘chamado’, a lógica da família sendo que uma pessoa bem-sucedida é aquela que faz o que ama. Eles parecem acreditar tanto nisso que, por anos, eu comprei a coisa sem questionar. E, assim, escolhi minha carreira sem nem uma vezinha sequer espiar uma tabela de remuneração ou fazer qualquer pesquisa pra comparar expectativas salariais de, digamos, motoristas de perua e diplomatas. Não que eu fosse capaz de ser uma dessas coisas.

Foi só meia década depois de me formar que a minha ficha debilóide caiu. Em jornalismo, uns sete ou oito negos ganham fortunas. O resto de nós passará o resto de seus anos levando uma vidinha mais-ou-menos. (Excluem-se aqui aqueles que, por virtude de nascimento e/ou conjunção amorosa, beneficiam-se do pecúlio alheio.)

Não pensem que a minha inocência foi a de imaginar que eu poderia ser uma dos sete ou oito; não – eu simplesmente nunca nem pensei no assunto. Como se dinheiro não importasse. E hoje em dia isso me persegue.

Eu ressinto o fato de ganhar menos do que todas as pessoas com quem convivo fora do trabalho. Eu poderia ter virado médica, advogada, operadora da bolsa, engenheira. (OK, talvez não engenheira, com as minhas notas em matemática.) Mas não, fui atrás das palavras, que além de não pagarem o que eu mereço, já não me causam felicidade alguma. Algo há de ser feito.