Mudaram as estações, nada mudou

terça-feira, dezembro 15, 2009

Sumida, eu? Não, queridos. Essa vista que vocês veem pela janela, mudando rapidamente de campos floridos para árvores avermelhadas para cinzentice geral, é nada além de um recurso cinematográfico usado para simbolizar a passagem do tempo quando não há nada acontecendo que valha linhas no script.

Três meses depois e ainda nada de relevante para contar, mas já que vocês estão aí, pipoca em mãos e esperando o desenrolar da coisa, aqui estou — para falar sobre a grande vantagem do inverno.

Ladies and gentlemen, o frio me faz me sentir atraente.

Surreal, considerando-se o quanto ando enchendo a cara de chocolate e afins. Mas eu acho que é uma combinação de fatores: usar cachecóis charmosos, a maquiagem permanecer intacta durante o dia, o perfume durar mais (e aqui a gente pode usar eau de parfum sem dó nem piedade), a sensação aconchegante de entrar num ambiente aquecido vindo de fora, com as bochechas coradas.

Beber quantidades maiores de vinho tinto também ajuda. E as blusas quentinhas escondem os excessos.

O verão só é uma estação sexy pra gente malhada perto da praia, desculpa. O resto de nós sua, se descabela e tem de usar roupas pouco lisonjeiras no ambiente urbano. Além do mais, cerveja é a mãe da peste pra barriga. (Eu nego tudo o que escrevi aqui.)

E acho que nem preciso brigar pra convencer ninguém de que é SEM NOÇÃO ter de vestir biquíni na mesma temporada em que comemos ceias de Natal e ano novo, certo?

Feliz inverno.


Em busca do Dharma

terça-feira, fevereiro 10, 2009

A Crise, para mim, era que nem o homem do saco — uma coisa levemente assustadora, mas que você, na verdade, não leva muito a sério. Até que o furacão passou e levou embora muito, muito rapidamente a melhor coisa que me aconteceu em anos: a minha fuga perfeita para um canto quentinho e feliz do planeta, longe das correntes de vento e de loucura que estavam deixando a minha vida gélida.

Assim, estou de volta à Inglaterra. Numa casa provisória no meio do absoluto nada, com metade dos meus pertences num guarda-volumes e o restante voando por aí; sem emprego, sem internet, sem casaco de inverno, sem a cama de quase dois metros de largura à qual inevitavelmente me afeiçoei. E, de tudo, o que mais me faz falta é uma certa fortaleza emocional que eu na verdade nunca tive, aquela capacidade budista invejável de abrir mão de todo desejo e todo apego, porque são eles, e não as mudanças, que nos fazem arrancar os cabelos (metaforicamente; não cheguei nesse ponto, ainda).


Segunda-feira de cinzas

segunda-feira, julho 14, 2008

Por cima do mar de mesas ela vê o céu. O dia é de um cinza lívido. De tempo em tempo, revezam-se o frio e a chuva, como se tentassem cobrir entre eles, com recursos partilhados, as horas esparramadas do dia.

Expectativas, fantasias, planos, profecias. Que diferença há entre uma e outra? No fim das contas, estão todas contidas nela. Confinadas. Por mais alto que grite o seu desejo, ninguém lá fora consegue escutá-lo. Ou, se o faz, não liga a mínima, porque no mundo há fome e guerra e morte e desgraça. O problema dela é apenas o futuro.

Dentro dela os pensamentos são um peixe morto levado a nadar pelo sopro do motor de ar. Idéias do que foi ou poderia ter sido. Dor pelo que poderia vir a ser. Um desgaste sofrido e inútil. Quer desligar o movimento e poder cair inerte.

Ela continua girando na superfície, os olhos revirando no meio do aguaceiro, rezando, em sussurro, por uma pane que tire o motor de circulação. Porém o motor é ela quem controla. O motor é ela. E são ela o frio e a chuva que escurecem seus próprios dias. Mas ela continua a girar, porque sua fé — estúpida, injustificada e contra todas as provas em contrário — é persistente como erva-daninha.


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