Oficina do diabo

Sexta-Feira, Setembro 12, 2008

Ando a rainha dos cursos. Técnicas de tradução. Aulas de desenho. Sessão de culinária marroquina. Workshop pacifista. Debate sobre homofobia. Arranjos florais. (Tô topando todas.)

Ando numa fase reflexiva. Enxergando fatos. Criando futuros. Analisando raivas. Resgatando antigas verdades. Repensando o tema da reprodução.

Ando só. Um isolamento às vezes sombrio, às vezes chato, às vezes desperdiçado, quase sempre criativo e nunca, nunca ressentido, porque sabe Deus quando virá o próximo.


Segunda-feira de cinzas

Segunda-feira, Julho 14, 2008

Por cima do mar de mesas ela vê o céu. O dia é de um cinza lívido. De tempo em tempo, revezam-se o frio e a chuva, como se tentassem cobrir entre eles, com recursos partilhados, as horas esparramadas do dia.

Expectativas, fantasias, planos, profecias. Que diferença há entre uma e outra? No fim das contas, estão todas contidas nela. Confinadas. Por mais alto que grite o seu desejo, ninguém lá fora consegue escutá-lo. Ou, se o faz, não liga a mínima, porque no mundo há fome e guerra e morte e desgraça. O problema dela é apenas o futuro.

Dentro dela os pensamentos são um peixe morto levado a nadar pelo sopro do motor de ar. Idéias do que foi ou poderia ter sido. Dor pelo que poderia vir a ser. Um desgaste sofrido e inútil. Quer desligar o movimento e poder cair inerte.

Ela continua girando na superfície, os olhos revirando no meio do aguaceiro, rezando, em sussurro, por uma pane que tire o motor de circulação. Porém o motor é ela quem controla. O motor é ela. E são ela o frio e a chuva que escurecem seus próprios dias. Mas ela continua a girar, porque sua fé — estúpida, injustificada e contra todas as provas em contrário — é persistente como erva-daninha.


Pedaços de mim

Quinta-feira, Junho 12, 2008

Cansaço, cansaço, cansaço. Estou desde terça achando que é sexta. ¶ Perdi meu privilegiado posto perto da janela e agora minha mesa fica de frente pro corredor e com as costas para todos os chefes. Nenhuma cara amiga pra quem sorrir, três pares de olhos desamigos vigiando o meu monitor. ¶ Estou num humor em parte irritado e em parte melancólico. Trabalho e sogra explicam o primeiro. Trabalho e futuro explicam o segundo. Minha briga com a balança explica ambos e, quanto mais irritada e melancólica fico, mais feia essa briga se torna. ¶ Estou viciada no frappuccino de doce de leite da Starbucks. Não se compara a um pão francês quentinho recheado com doce de leite de, digamos, Viçosa. Mas quebra um galho. ¶ Continuo devendo informações sobre as notícias que importam, né? Pois é. Güentaí.


Reinauguração, parte MDXCI

Segunda-feira, Abril 7, 2008

Há muito tempo estou querendo ressuscitar o blog. Venho adiando por medo, puro e simples, de que ninguém queira ler o que eu tenho para escrever. O que, provavelmente, é mesmo o caso.

Alguns pobres de vocês acompanham meus resmungos desde o primeiro Diário Intramuros, que inaugurei em 2001. Desde lá virei uma pessoa muito menos interessante. Deixei de ser mega-nerd, mega-azeda, mega-abraçadora-de-árvores, assistidora compulsiva do Warner Channel e outros adjetivos não necessariamente favoráveis, mas que faziam de mim ‘mim’.

Virei uma versão sem-graça de mim mesma. Tão poucos anos, se formos pensar, para tal abismo ter-se aberto entre nós. Mas há um motivo. Me desliguei do universo que habitava em tantos sentidos que me sinto vagando pelo mundo, com orgulho profissional abandonado, amizades quebradas, família distante e nenhuma idéia do que fazer comigo mesma.

Ou talvez eu esteja apenas ficando confusa com a idade. Acontece.

Mas mesmo os mais bestas têm algo a dizer. E no momento estou numa fase tão angustiada com o futuro que um tema parece formar-se diante de mim. Por isso, a volta ao fantástico mundo dos diários virtuais. Mantenho o nome não por constância, algo que me falta, mas por falta de criatividade, algo que abunda no momento. Bem-vindos.