Terça-feira, Maio 20, 2008
Andy está doente há dois dias. Dias úteis, corrijo – porque aparentemente a doença o aflige desde sábado, causando-lhe “sintomas de enxaqueca”, “incapacidade de controlar a temperatura corporal” e “cérebro tentando escapar pelos ouvidos”. Palavras dele, não minhas. Eu jamais diria uma coisa dessas, porque nem sabia que ele tinha um cérebro.
Desde segunda, também, a equipe toda está trabalhando em dobro graças a uma migração técnica gigantesca por que estamos passando. Curiosa mas não surpreendentemente, P e eu produzimos muito mais nesse tempo do que com a ‘ajuda’ do nosso chefe. Em geral, nossa rotina inclui algumas boas horas fiscalizando – e corrigindo – tudo aquilo em que ele mete os gordos dedos. Mas essa semana, não. Por dois gloriosos dias, ninguém ‘esqueceu’ uma etapa do processo de publicação, nenhum erro de gramática foi introduzido durante a edição de uma matéria, nenhum plágio teve de ser identificado e impedido antes que um advogado batesse na nossa porta. Foi um vislumbre místico da vida sem Andy.
Parte de mim já se tornou incapaz de sentir compaixão. Um peso morto é sempre melhor quando faz jus ao nome que leva. Estou pensando em ir pessoalmente dar uma força àquele lance do cérebro saindo pela orelha.
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Confissões, resmungos e lamentos, Jornalismo, Meu dia, O fantástico mundo de Andy, Trabalho | Etiquetado: cérebro, chefes, compaixão, doenças, edição, enxaqueca, erros, gramática, plágio, produtividade, rotina |
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Escrito por Mrs G
Sexta-Feira, Abril 11, 2008
Com minha avó materna, uma das mulheres mais sábias sobre a face da Terra, aprendi que nada está tão ruim que não possa piorar. A pílula de sabedoria provavelmente veio na forma de um dito popular, e possivelmente em italiano (por isso não me culpem se entendi ligeiramente errado), mas, em suma, ela teria me incentivado a não sonhar com a morte lenta e dolorosa do meu ex-chefe porque eu poderia me arrepender. E ela estaria certa.
Trabalhei por cerca de um ano com uma criatura reles a que chamaremos aqui SH. Uso as iniciais pelo simples motivo de que ele busca a si mesmo no Google o tempo todo, e por um golpe do destino o indivíduo tem uma namorada brasileira. Deus permita que eu compreenda como ele conseguiu uma namorada, pra começo de conversa. E brasileira. Todo mundo sabe que gringo adora brasileira. Ela poderia ter arrumado coisa muito melhor. Mas fujo do ponto.
A questão é que SH fez minha vida muito difícil desde o dia em que entrei aqui. Inevitavelmente, passei a desejar que o pior acontecesse a ele. Não obtive a graça completa, mas comemorei com a mesma disposição quando ele pediu a conta em dezembro. Mal sabia eu.
Sai SH, entra Andy.
Sete semanas e já tenho material para um livro em dois volumes. Piadas prontas para o blog, e de graça! Por hoje, uma introdução.
- Por que você escreveu Crohn’s disease com letra maiúscula e apóstrofo?
- Porque eu gosto de escrever corretamente.
- Mas por que a letra maiúscula? Você não escreveu câncer com letra maiúscula.
- Porque nomes próprios escrevem-se com letra maiúscula. Tipo Andy.
- Hm. Mas isso não explica o apóstrofo.
(Pausa. Três minutos mordendo a parte interna da bochecha.)
- Trata-se de possessivo. O Dr Chron descreveu a doença pela primeira vez. Na língua inglesa, faz-se assim.
- Não estou convencido.
- Eu juro. Pode perguntar pra quem você quiser.
- Não, pode deixar. Vou investigar isso a fundo sozinho.
Bem-vindos ao fantástico mundo de Andy.
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Frases, O fantástico mundo de Andy | Etiquetado: avó, brasileiros, burrice, chefes, gramática, gringos, inglês, sabedoria |
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Escrito por Mrs G
Quarta-feira, Abril 9, 2008
Em janeiro comecei um curso preparatório para tirar um diploma em tradução. Meus trabalhos sempre voltam com alguma correção gramatical ou ortográfica. No texto em português.
É surreal e constrangedora a rapidez com que uma pessoa de razoável inteligência pode se transformar em uma Luciana Gimenez.
Apesar da a minha fluência no inglês ter dado um salto, a velocidade das traduções diminuiu em relação ao tempo em que eu fazia meus frilas no Brasil. Eu sei exatamente o que o texto significa, mas não tenho a mais vaga noção de como dizer a coisa na minha própria língua.
Não foi da noite para o dia, mas dois anos também não são nenhuma eternidade. E, no entanto, com uma ferocidade certeira e alarmante, fui perdendo a minha capacidade de ser pedante no uso do idioma.
Esqueço palavras. Paro diante de xizes e ce-agás. Construo frases que só fariam sentido em inglês. Não só isso: fui perdendo a voz. Virei alguém que diz quite nice em vez de absolutamente do caralho. Próximo passo, um filho com o Mick Jagger.
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Tradução, Vida expatriada | Etiquetado: gramática, inglês, inteligência, Luciana Gimenez, português |
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Escrito por Mrs G