Chegadas e partidas

Quinta-feira, Agosto 14, 2008

Eu amo e odeio viajar, em partes quase iguais. Amo conhecer lugares, comidas, cheiros e costumes diferentes. Bater perna até cair ou ficar de perna pro ar, mudar de rotina e de língua e de travesseiro. Mas fazer (e desfazer) mala acaba com o meu tesão de tal maneira que quase chego a desistir da coisa quando o momento chega.

É um mistério como consegui sobreviver não apenas viajando, mas mudando de casa, tantas vezes no último ano. Cinco endereços em 13 meses. Dois deles, com o Atlântico no meio. Eu não posso mais ver caixa e fita marrom pela frente. E a provisoriedade. Total vida de cigana. Tudo o que eu quero agora é fincar minha cabana no chão e deixar a vida ficar entediante de novo.

A parada, aqui, não é permanente ainda. Mas deve durar o suficiente pra gente poder chamar nosso canto de lar. Uma semana na casa nova e já vejo que vai ser mole, mole.

Irvine fica a 50 minutos de LA, entre a praia, em Newport Beach, e as montanhas de Santa Ana. Nosso apartamento é aconchegante (temos a maior cama de todo o universo), o condomínio é excelente (aula de ioga, degustação de vinho, churrasco com banda ao vivo, tudo de graça) e um sol gigantesco brilha lá fora. O povo te cruza na rua e pergunta como você está. Todo mundo bate papo fácil na piscina. Tenho uma Starbucks no prédio, um cinema a cinco minutos e ruas intermináveis ao pé do portão, prometendo aventuras a uma mala de distância.

O-oh.


De repente, Califórnia

Terça-feira, Julho 22, 2008

Aconteceu assim:

Os americanos que pagam as contas lá de casa, por intermédio do salário do marido, decidiram que precisavam dele in loco para um projeto X. A oportunidade era boa demais pra gente pensar em recusar: distância da sogra, casa, carro, baixo índice pluviométrico. Eu já estava de joelhos com a primeira oferta. O resto é lucro.

Por mais que eu odeie minha vida miserável nesse site do inferno, manter meu emprego e trabalhar de casa — como fiz ano passado, no Brasil, nos meses pós-cirúrgicos da mamma — nos proporcionaria a chance de juntar dinheiro durante esse tempo. E, quando negociei com a chefia, o plano foi aprovado.

Agora o carimbos da embaixada chegaram, e, com eles, a notícia de que trabalhar de casa (ainda que para uma empresa estrangeira, recebendo pagamento em moeda estrangeira, em banco estrangeiro) é ilegal pelo L2 — o visto de acompanhante que me cabe. Ao que tudo indica, sua alma passa a pertencer ao IRS assim que você pisa nos EUA. Se eu quiser trabalhar, tenho de pedir um work permit que leva 90 dias pra ser aprovado.

São três mesinhos apenas. Dá uma vontadezinha de burlar a lei. Afinal, quem poderia provar o que eu faço dentro da minha casa, sem dinheiro nenhum trocando de mãos no país? Mas, se tem uma coisa que eu aprendi com a Glória Perez, é que com a Migra não se brinca.

E foi assim que, por força das circunstâncias, acabei na posição de ter de largar o meu emprego. E não é culpa minha se eu tenho de ficar de pernas pro ar, por três meses, no ensolarado Orange County. A vida quis assim.


Sobrecarga e a arte de tagarelar sobre o nada

Quinta-feira, Maio 29, 2008

Tudo nessa vida é questão de hábito. Fazer a cama, meditar, tirar a maquiagem antes de dormir. Você desenvolve um ritual. Você cria um espaço para que a coisa aconteça. Você se força um pouquinho e quando vê aquilo virou parte do seu dia-a-dia. Possíveis exceções são limpar privada e pagar imposto. Mas escrever não foge à regra. E não escrever também não.

Porque o tempo é escasso e os afazeres, muitos, é fácil entrar numa rotina de ignorar as frases que se redigem na cabeça, em Verdana 10. Com o passar dos dias, perde-se a formatação. Logo os parágrafos viram bullet points. Palavras-chave rabiscadas. Símbolos taquigráficos. E aí, já era. Quando se vê, lá se foi uma semana sem que os monstrinhos saiam pra passear.

Mas monstros precisam de ar. Aí você tenta criar o espaço pro lazer deles de novo. Mas nem sempre dá. Quando sua empresa está virada do avesso tentando migrar para uma plataforma alienígena, por exemplo. Ou quando se está muito, mas muito atrasada mesmo, com os trabalhos de um curso que você resolveu fazer num momento de loucura. (Mais sobre isso depois.) Aí você, pra completar, compra uma casa. Sua primeira casa. (Mais sobre isso depois.) E, no meio disso tudo, começa a se preparar pra fazer as malas e mudar de ares mais uma vez. (Mais sobre isso depois.)

E, no fim das contas, tantos pensamentos se acumulam que você nem sabe por onde começar. E acaba escrevendo sobre a falta de tempo pra escrever. Ê, mundo cão.