Em busca do Dharma

Terça-feira, Fevereiro 10, 2009

A Crise, para mim, era que nem o homem do saco — uma coisa levemente assustadora, mas que você, na verdade, não leva muito a sério. Até que o furacão passou e levou embora muito, muito rapidamente a melhor coisa que me aconteceu em anos: a minha fuga perfeita para um canto quentinho e feliz do planeta, longe das correntes de vento e de loucura que estavam deixando a minha vida gélida.

Assim, estou de volta à Inglaterra. Numa casa provisória no meio do absoluto nada, com metade dos meus pertences num guarda-volumes e o restante voando por aí; sem emprego, sem internet, sem casaco de inverno, sem a cama de quase dois metros de largura à qual inevitavelmente me afeiçoei. E, de tudo, o que mais me faz falta é uma certa fortaleza emocional que eu na verdade nunca tive, aquela capacidade budista invejável de abrir mão de todo desejo e todo apego, porque são eles, e não as mudanças, que nos fazem arrancar os cabelos (metaforicamente; não cheguei nesse ponto, ainda).


Enquanto isso, em uma nada cool Britannia

Segunda-feira, Julho 28, 2008

A contagem regressiva para a viagem chegou naquele ponto em que cada semana demora um mês pra passar. As passagens foram marcadas, o empacotamento encontra-se em estado avançado e a maior parte das despedidas já passou. Agora, é esperar. O trabalho acaba na quinta. No fim de semana, Maracugina (sic) e sogra em quantidades proporcionais. O vôo sai segunda às 15h10 e, depois disso, é tudo um grande mistério. Mas sem sogra. Sem. So-gra.

Enquanto isso, o verão segue a toda, fritando a pele e derretendo o cérebro. Verão, aqui, é aquela época do ano em que todas as mulheres usam Havainas (as legítimas) pra trabalhar e acham que tudo bem. A temporada é sinônimo de baldes de Pimm’s, casamentos, sorveteiros em vans, pernas brancas — e outras partes normalmente mais privadas do corpo — à mostra nos parques públicos. Carros conversíveis surgem como enxame ao primeiro sinal de sol. Os pássaros cantam, a grama domina o mundo, o governo proíbe o uso de mangueiras.

Para mim, mais do que tudo, a estação é o que torna tolerável um dos mais insuportáveis hábitos ingleses: o almoço frio.

Todo mundo adora falar mal da cozinha inglesa, mas devo dizer que, depois de dois anos e meio morando na ilha, ainda não consegui me convencer de que o povo aqui come tão mal assim. Minto: come-se mal, sim, mas acredito que por opção. Londres, pelo menos, não difere de São Paulo em nada nesse quesito. Tem cardápio pra tudo o que é gosto, do mais trash kebab ao mais surreal mingau de lagostins, e comida de todas as nacionalidades possíveis. Se a comida inglesa típica não apetece, não faltam mesas que ofereçam alternativas mais sutis, mais saudáveis, mais ousadas. E se não está feliz, fogão, meu filho. Como em qualquer lugar do mundo. Como se arroz com feijão fosse a oitava maravilha do mundo, também.

O real problema da culinária local não é a culinária local, mas o desprezo que os locais parecem ter pela culinária antes das seis. Dita uma certa norma tácita que, na hora do almoço, em dia de semana, comem-se sanduíches. Wraps. Saladas de macarrão. Torta de carne de porco. Peão ou CEO, tanto faz — se não é almoço de negócios ou um luxo ocasional, os ingleses tiram seus repastos meridianos diretamente da geladeira.

Nos supermercados há prateleiras específicas para comes portáteis; ficam perto da porta, para economizar tempo. Além dos já citados “pratos principais”, há iogurtes com colherinha, pedaços de queijo em tamanho individual, pastéis indianos, mini-saladas de frutas, batatinhas. Ao redor dos escritórios, abundam cafés que servem esses e outros, er, quitutes pra levar, e até mesmo farmácias investem pesado no setor do almoço ambulante.

Pode-se argumentar que um alimento frio oferece as mesmas qualidades que a sua contraparte quente, mas meu estômago não se convence. Todo lanche tem gosto de improviso. Toda refeição fica com cara de piquenique.

Na minha equipe, eu sou vista como má influência porque arrasto os colegas pro pub uma vez por semana. Eu não sou louca por comida de pub — essa, sim, a típica comida gorda, nutricionalmente pobre e sem originalidade desta terra –, mas, como acaba sendo a minha única oportunidade de almoçar comida quente em dias úteis, abraço a chance com fúria. Fumacinha saindo do prato e comida servida à mesa são dois afagos psicológicos de que eu preciso.

Mas, no verão, tudo bem. Não ligo, e até gosto, de sentar num parque com as canelas pálidas à mostra e me espalhar pela grama fofa enquanto como meu lanche e um sorvete.

Pelo menos até segunda-feira.


Sonho de gato, dia de cão

Quarta-feira, Julho 2, 2008

A minha viagem da nova casa pro trabalho, e de volta, leva duas horas. Quatro horas por dia quase perdidas, não fosse pela parte mais longa da jornada, que me permite um assento no trem e, portanto, leitura, por cerca de uma hora pra cada lado. Nos demais trechos eu alterno entre corridas até outras estações ou plataformas e um Espaço Individual de uns 40 centímetros quadrados dentro do metrô mais quente e superlotado da face da Terra (e sim, eu já andei na linha leste-oeste em São Paulo às 5h da tarde).

As vantagens de morar no meio do mato são que a casa é espaçosa e a vizinhança, silenciosa, as escolas da região são aparentemente ótimas (praqueles filhos que eu ainda não tenho, lembra?) e pelo mato em si — o ar é puro e temos um jardim amigo com gramado e arbustos e árvores e o gato da vizinha, que gosta de deitar no nosso canteiro de flores e dormir o dia inteiro. (A vida dos meus sonhos, tirando os insetos.)

Tendo realizado essa corrida dos infernos por duas semanas e meia, sentindo com uma raiva especial das pessoas imbecis com quem trabalho por esses dias e estando à beira de um ataque de nervos (vide os quatro últimos posts; aliás, vide esse blog inteiro), me dei de presente um dia de folga. Pensei em todas as horas desperdiçadas no forno do transporte público, na maneira indigna como volto para casa todos os dias, suada e descabelada, e decidi que hoje eu colocaria uma toalha na grama e passaria o dia lendo revistas ao sol e não fazendo nada.

Como era de se esperar, o tempo que faria as minhas idas e vindas mais humanas se materializou justamente quando eu não preciso dele. Está frio, chovendo e cinzento. Duvet day, então? Sim, seria a solução perfeita, se eu tivesse uma cama de verdade. Internet? Ainda não foi reconectada (serviço de primeiro mundo!), então para escrever aqui e checar meus emails tive de comprar créditos e acessar a rede sem fio local.

Obrigada, verão inglês, por adicionar mais um grau no meu insanômetro.


E por falar em britânicos

Quinta-feira, Maio 15, 2008

Ando numa fase de Henrique VIII.

Estou tentando lembrar quando começou, mas a memória me falha. Tesão por reis ingleses (no sentido histórico, não erótico, da coisa) eu sempre tive, começando com um que talvez nem tenha existido, Artur (OK, esse no sentido erótico da coisa também). Acho que esse é o único amor constante e, fora ele, as épocas variam. Agora estou num momento Tudor, avivado, acredito, pelos lugares revisitados durante a visita dos meus pais. E por The Other Boleyn Girl, que estou lendo e curtindo. Resultado, muitas horas de trabalho perdidas em buscas na internet, e uma gigantesca lista de livros que quero ler sobre o cara e a época – o que provavelmente vou enrolar tanto pra fazer que, até lá, já estarei pensando em outro rei. Mas enfim.

Engraçado que eu nunca me empolguei pelas cortes francesa, espanhola, russa. Nem pela portuguesa, que poderia ter sido uma escolha natural pra quem 1) é metade lusa e 2) teve de engolir as malditas navegações durante tantos anos na escola. Mas minha paixão (entusiasmo, curiosidade, vício – nem sempre amor e admiração) sempre foi a ilha – dos celtas a Churchill. Cheguei até a estudar gaélico com um livro Teach Yourself, tem noção?

E daí?, você me pergunta. Afinal, eu não sou a primeira pessoa a me fascinar pela história alheia. E daí que eu casei com um inglês, cara. Coincidência? Profecia auto-realizável? Busca inconsciente? Não sei. Mas no momento estou botando as minhas fichas em destino.


Quase jurada

Sexta-Feira, Abril 18, 2008

Recebi uma carta da rainha, solicitando meus serviços.

Her Majesty (OK, Her Majesty’s Courts Service, mas tenho certeza de que dá na mesma) tirou meu nome do chapéu e me escreveu chamando pra ser membro do júri popular. Fui intim…, er, convidada a comparecer dia 19 de maio no Tribunal da Coroa de Blackfriars, sob pena de pagar multa de £1,000 se eu não obedecer. Medo!

Não é mau negócio de todo. Me anima a idéia de participar de um julgamento interessante e ajudar a botar na cadeia, por exemplo, um adolescente delinqüente que tenha matado alguém a chutes. Ou inocentar um pobre trabalhador atormentado que tenha acidentalmente empurrado seu chefe sob um trem. E eles até pagam pelo seu tempo.

Só tem um porém. Esqueceram de checar meus registros, e acontece que eu não sou elegível. Você tem de ser maior de 18, ter menos de 70, ter morado no país por um mínimo de 5 anos, nunca ter sido preso e não apresentar sintomas psicóticos.

E não, eu não vou revelar por que critério(s) eu fui eliminada da lista.