Cuidado com o que desejas

Sexta-Feira, Abril 11, 2008

Com minha avó materna, uma das mulheres mais sábias sobre a face da Terra, aprendi que nada está tão ruim que não possa piorar. A pílula de sabedoria provavelmente veio na forma de um dito popular, e possivelmente em italiano (por isso não me culpem se entendi ligeiramente errado), mas, em suma, ela teria me incentivado a não sonhar com a morte lenta e dolorosa do meu ex-chefe porque eu poderia me arrepender. E ela estaria certa.

Trabalhei por cerca de um ano com uma criatura reles a que chamaremos aqui SH. Uso as iniciais pelo simples motivo de que ele busca a si mesmo no Google o tempo todo, e por um golpe do destino o indivíduo tem uma namorada brasileira. Deus permita que eu compreenda como ele conseguiu uma namorada, pra começo de conversa. E brasileira. Todo mundo sabe que gringo adora brasileira. Ela poderia ter arrumado coisa muito melhor. Mas fujo do ponto.

A questão é que SH fez minha vida muito difícil desde o dia em que entrei aqui. Inevitavelmente, passei a desejar que o pior acontecesse a ele. Não obtive a graça completa, mas comemorei com a mesma disposição quando ele pediu a conta em dezembro. Mal sabia eu.

Sai SH, entra Andy.

Sete semanas e já tenho material para um livro em dois volumes. Piadas prontas para o blog, e de graça! Por hoje, uma introdução.

- Por que você escreveu Crohn’s disease com letra maiúscula e apóstrofo?

- Porque eu gosto de escrever corretamente.

- Mas por que a letra maiúscula? Você não escreveu câncer com letra maiúscula.

- Porque nomes próprios escrevem-se com letra maiúscula. Tipo Andy.

- Hm. Mas isso não explica o apóstrofo.

(Pausa. Três minutos mordendo a parte interna da bochecha.)

- Trata-se de possessivo. O Dr Chron descreveu a doença pela primeira vez. Na língua inglesa, faz-se assim.

- Não estou convencido.

- Eu juro. Pode perguntar pra quem você quiser.

- Não, pode deixar. Vou investigar isso a fundo sozinho.

Bem-vindos ao fantástico mundo de Andy.


Nossa língua portuglesa

Quarta-feira, Abril 9, 2008

Em janeiro comecei um curso preparatório para tirar um diploma em tradução. Meus trabalhos sempre voltam com alguma correção gramatical ou ortográfica. No texto em português.

É surreal e constrangedora a rapidez com que uma pessoa de razoável inteligência pode se transformar em uma Luciana Gimenez.

Apesar da a minha fluência no inglês ter dado um salto, a velocidade das traduções diminuiu em relação ao tempo em que eu fazia meus frilas no Brasil. Eu sei exatamente o que o texto significa, mas não tenho a mais vaga noção de como dizer a coisa na minha própria língua.

Não foi da noite para o dia, mas dois anos também não são nenhuma eternidade. E, no entanto, com uma ferocidade certeira e alarmante, fui perdendo a minha capacidade de ser pedante no uso do idioma.

Esqueço palavras. Paro diante de xizes e ce-agás. Construo frases que só fariam sentido em inglês. Não só isso: fui perdendo a voz. Virei alguém que diz quite nice em vez de absolutamente do caralho. Próximo passo, um filho com o Mick Jagger.