Inadimplência social

Quarta-feira, Setembro 24, 2008

A deprivação de leitura chegou e passou, e eu sobrevivi. Se não soasse auto-ajuda demais, diria até que saí melhor do outro lado. Com menos paciência para o lixo que come o meu tempo. Mais exigente.

Um dos resultados foi que saí, de novo, do Facebook. E agora estou pensando em como me livrar da pilha de emails não-respondidos na minha caixa de entrada sem ofender ninguém nem passar os próximos cinco anos amarrada na frente do computador.

Amizades a distância são foda. Achei que estava me libertando dos relacionamentos escritos quando me mudei para perto do então namorado, mas, em vez disso, arrumei dúzias de pen pals. (Mais alguns, depois de vir pra cá.) E, ainda que eu ligue para a minha mãe duas vezes por semana, ela resmunga que eu não escrevo nunca.

Que bom que credores não podem pedir nossa falência social quando não conseguimos pagar nossas dívidas. Meu crédito está sujo e me faltam recursos para dar a cada um aquilo que ele merece. Gostaria, em vez disso, de ter a chance de ver todo mundo junto, zerar o registro no atacado. Alguém tem planos pro Natal?


Rehab

Segunda-feira, Setembro 15, 2008

Meu nome é Camila e eu sou uma leitora compulsiva.

O primeiro passo é admitir, não é? Aí está. Descoberta fresca, que veio à luz da maneira mais árdua: com um jejum que mal começou e já está me causando síndrome de abstinência.

Eu sou uma escrava da leitura.

O leitor chatonildo, que estava prestando atenção na aula quando deveria estar jogando truco, vai dizer que escravos somos todos. Yadda yadda. Não estou fazendo crítica social. Estou falando de vício. Tortura. Bola de ferro no pé.

Imagine você, caro leitor, que estou proibida de ler por uma semana. Longa história. O que importa é que, desta manhã até segunda-feira que vem, a única coisa que posso ler é o material do curso em questão, delineando as tarefas da semana. Nada de jornal, UOL, blogs, revistas. E, principalmente, livros.

Logo de manhã o problema já se impôs. Minha mãe ligou atrás de um dado que, óbvio, estava no rodapé de um documento escrito. Tive de ler um pedaço do texto, não teve jeito. Era uma matéria de urgência. Me perdoei a escorregada porque era a primeira coisa do dia, “não estava valendo ainda”.

Mas o dia corre. São 11h, agora, e já estou tendo uma semi-síncope. O que eu vou fazer comigo mesma por uma semana inteira sem ler?

Foi aí que me ocorreu: o meu tradicional “eu sou feliz com a minha própria companhia” é uma pataquada. Eu sou feliz, muito feliz, radiante, inebriada, até, na companhia de livros. Mas livros têm vida. Livros têm idéias. Livros são um condensado dos pensamentos de outras pessoas num formato compacto e fácil de transportar. Eu nem sei como me viro na minha própria companhia por períodos longos de tempo — porque raramente me dou a chance de viver assim.

Eu acho que nunca na vida fui ao banheiro sem leitura. Se o livro está me agarrando pelos cabelos, eu o levo até pra acompanhar o mais rápido xixi do mundo, e acabo ficando lá sentada, sem fazer nada, pra não interromper o fluxo da história.

Eu sempre tenho um livro na bolsa. Mesmo que saia de carro, o livro vem junto. Nunca se sabe o que se irá encontrar do lado de lá. Quando ando de transporte público, muitas vezes tenho um livro e uma revista, já que um é mais fácil de segurar que o outro, caso eu não consiga um assento; e às vezes os livros são dois, se um deles parecer estar chegando ao fim, ou se preciso de dois humores diferentes para o dia.

Se vamos viajar, preciso de um livro. Não leio no carro, mas o que fazer quando o marido vai ao banheiro, ou se ele adormecer antes de mim? Ler, é claro.

Outro dia, saímos de casa às pressas e acabei esquecendo minhas muletas. Chegando lá, não dava muito pra conversar. Havia um silêncio de hospital na sala de espera. Levamos olhadas feias por sussurrar. O jeito era calar a boca. Sem livro! Sem revista! Levantei e peguei uma pilha de folhetos explicando como pedir benefício do governo se você é mãe solteira ou deficiente físico. E os li, do começo ao fim. Provavelmente, o equivalente de um alcoólatra beber perfume na falta de uísque.

E não é só a falta de livros que mata. Meu computador já apitou 17 vezes na última hora anunciando novos emails que eu não posso abrir. (Desliguei o som, mas tem um maldito pop-up que me salta na cara.) Não posso estudar. Não posso pesquisar informações no Google. Não posso nem consultar as malditas páginas amarelas. É uma vida impossível.

Mas posso escrever. E a idéia do jejum é justamente essa: parar de entupir as veias com as palavras dos outros para deixar que as suas circulem. Pelo tamanho desse choramingo, vejo que já está fazendo efeito. Mas não sem calafrios.


A vida sem despertador

Quarta-feira, Agosto 20, 2008

Desemprego é um estado todo novo para mim. Sem chefe. Sem obrigações. Sem estresse. Sem deadlines. Acordar a hora que quiser (apesar de que, na minha idade, já não fico mais na cama depois das 10h nem com Lexotan). Passar o dia inteiro descalça. Ir pra piscina no meio da tarde. É a glória… e é estranho pra caralho.

Eu comecei com boas intenções: fiz uma tabela horária no Excel e planejei uma semana típica, com horário fixo pras refeições e pra outras atividades regulares, como exercício (boa menina que sou), estudos (o exame do DipTrans é em janeiro), aula de dança (de volta! yay!), trabalho voluntário (nada nas proximidades, mas oportunidades interessantes para trabalhar de casa).

Mas é difícil tentar organizar a vida quando tudo o que você faz é por opção. Que acontece se eu não for pra esteira hoje? Nada. Então vou me jogar no sofá e ler mais um pouquinho (umas 5 ou 6 horinhas, não mais). E o curso está em férias de verão, não tem pressa de estudar, tem? Vou gastar o resto do dia jogando conversa fora no MSN. O trabalho voluntário pode começar semana que vem, não pode? E por aí vai. Conexão expressa pro brejo.

Nem uma desempregada comum eu sou, porque não estou indo atrás de nada. Sabe aquela ansiedade que deveria haver para conseguir uma entrevista? Mandar 35 currículos por hora para qualquer lugar que diga ‘vagas’? Nada. Nix. Niente. Nothing.

Durante a minha única fase da lacuna entre empregos no passado, fiz frila até o umbigo alisar (expressão da minha mãe que, provavelmente, não foi concebida para ser utilizada nesse contexto) e mandei não 35, mas 70 currículos por hora, até estar com a minha carteira assinada de novo. (Figurativamente. Não assinaram a minha carteira.) Essa necessidade não existe, agora. Semana passada fiz uma pesquisinha de mercado, pra ver se conseguiria arrumar trabalho aqui por perto, e achei uma editora de revistas a dez minutos de casa. Com vagas. Em que isso mudou a minha vida? Em nada, porque não posso me candidatar até a bendita permissão sair. De volta ao nada.

E, ainda assim, chega o fim do dia e eu lembro que deveria ter preenchido um formulário X do meu cartão de crédito, ou que deveria ter ligado pra uma pessoa Y, e não tive tempo. Não tive tempo. Tem noção?! Como uma pessoa desempregada, que não está à procura de trabalho e está cabulando os estudos, pode não ter tempo? Mistérios do mundo. Acho que preciso empregar meu velho despertador de volta.