O livro se fecha

Sábado, Junho 20, 2009

Houve um tempo em que o conteúdo da minha cabeça vinha parar no blog praticamente em estado bruto. Não nego retoques, pequenos exageros, a escolha deliberada de diferentes e mais brandos termos para substituir o palavrão que, de outra forma, pontuaria a minha escrita a cada frase; mas os temas, em si, não eram censurados. Tirando o ocasional comentário maldoso sobre um colega aqui e outro ali, nunca tive muito motivo para temer que alguém lesse os meus desvarios.

Estou em outra fase, agora. Há coisas acontecendo na minha vida e nas minhas ideias que não podem entrar aqui. E tão imersa estou nelas que já nem consigo mais negar que este blog não é um discutidor de temas mas um claro exercício narcisista para falar de mim, mim, mim.

Minhas opções se resumem então a 1) escrever posts completamente herméticos, que não fazem sentido e irritam; 2) não escrever — e possivelmente explodir, e 3) abrir um espaço anônimo em que eu possa pensar alto e por escrito sobre o caralho da vida.

Ou talvez eu deva simplesmente esquecer o blog, sentar a bunda na cadeira e trabalhar num livro, dando às minhas personagens experiências minhas, mas disfarçadas debaixo da ficção. E, obviamente, negando os elementos autobiográficos até o fim. Afinal, não há ninguém no momento nesse mundo inteiro que esteja tão próximo de mim que possa contar a verdade.


A jornada do herói

Quinta-feira, Outubro 16, 2008

Me parece apropriado falar de uma história de naufrágio e sobrevivência nesse post que é quase uma ressuscitação do blog — de novo. Tudo bem que a história não é minha, mas do escritor hispano-canadense (ou algo assim) Yann Martel. E não é nova: foi contada há mais de meia década e todo mundo provavelmente já leu, por causa do prêmio e da acusação de plágio e tal. Mas tudo isso são detalhes, porque vou contar a minha história sobre a história. Chamemos esse pedaço de escrita de crítica.

O marido leu A Vida de Pi há anos e me disse que era bom. Eu provavelmente agradeci a dica e me esqueci completamente do assunto. Aí sábado nós fomos à biblioteca local e eu estava perambulando havia uma boa meia hora sem achar nada que me agradasse, quando vi quatro volumes do livro na estante. Peguei um pra folhear e fiquei tocada com o prefácio. Resolvi trazê-lo para casa e não me arrependi.

Vamos tirar logo a trama da frente, para podermos prosseguir: garoto indiano, que é hindu, cristão e muçulmano, perde a família quando o navio em que viajava afunda. Eles rumavam ao Canadá num cargueiro cheio de bichos, vindos do zoológico que a família acabara de fechar. Garoto é o único sobrevivente humano. Mas no seu barco salva-vidas vão parar também uma hiena, um orangotango, uma zebra e um tigre. E agora? Bem, o final é feliz e você já sabe isso do começo, porque ele reconta a sua experiência do Canadá; mas o tesão da história é como ela é contada.

No começo, foi enlevo. A narrativa é inteligente, sensível, filosófica, profundamente existencialista e cheia de cor. Mas só vê tudo isso quem quer (tirando a cor, que está ali para todo mundo ver). Na superfície está somente a aventura de uma personagem interessante vivendo a sinuca-de-bico que lhe cabe nessa vida. E por si só, a aventura é das boas.

Mas o livro termina de um jeito anticlimático. Se a história tivesse sido concluída no momento em que o barco chega em terra firme, esse post nem existiria. Minhas mãos estariam ocupadas aplaudindo. Mas a teimosia o levou a escrever mais um pouco. Uma emenda desnecessária que quer se passar pela parte “real” de uma obra que é inteiramente fictícia — e que matou, para mim, toda a magia. (Por assim dizer; não há magia no livro.)

Depois de passar quase 300 páginas comandando uma fábula fantástica, Yann Martel dá um tirinho no pé no último bloco — graças a Deus, curto. Como se quisesse desafiar o leitor que não mergulhou na fantasia, ele conta a mesma história (menino náufrago) de um jeito “convincente” (sai tigre, entra gente) e joga um “acredite na versão que quiser, mas não é mais legal com bichos? Que nem as parábolas religiosas”. Não precisava, porque o livro sozinho já havia cuidado de deixar isso claro, de prender o leitor, apesar da crescente impossibilidade. Em vez de sair no auge, deixou o palco num tom didático, infantil, bobo, inseguro.

Irritou a mim, também, chegar ao ponto final e descobrir que o prefácio é parte enganação. Ele fala da própria vida. Faz seus agradecimentos. Menciona sua viagem à Índia. Até aí, tudo verdade — até que ele conta como a história do livro nasceu e cita nomes, demonstrando que Pi Patel existe. Então o leitor, sem saber, acaba pego nesse truque baixo. Você fica achando que A Vida de Pi é baseado na vida do tal do Pi, com todas as licenças artísticas em campo, é claro.

Mas não — Pi Patel não é de carne e osso. E não faria diferença ele ser ou não, desde que o autor não tivesse mentido. Porque colocar esse tipo de informação no prefácio é pobre de espírito. O contador da história poderia ter dito a mesma coisa num prólogo — mas sem misturar a voz do narrador com a do escritor.

Martel cruzou a linha dos dois territórios porque queria ter certeza de que até o leitor mais tapado entendesse sua mensagem: “a realidade é como você a vê.” Ok, querido autor, obrigada, nós já havíamos entendido na oitava vez que você mencionou.

Mas literatura não precisa disso. Todo mundo sabe que histórias são parte vida, parte imaginação, e que nenhuma audiência sabe a proporção das partes. Todo mundo que abre uma porra de um romance sabe que o que vai encontrar ali é uma “estória”, como se costumava distinguir antigamente. Literatura não precisa dessas ilusões imbecis. E Yann Martel também não.

Aí vêm as minhas reações a isso tudo. A primeira foi desapontamento; eu tinha uma obra-prima em mãos e senti vontade de dar um soco no idiota que a estragou. A segunda foi alívio.

Eu estava achando A Vida de Pi tão bom, mas tão bom, que estava intimidada. Sentindo que nunca, jamais, em tempo algum, eu seria capaz de criar algo tão genial — e que seria para sempre atormentada pela minha inferioridade. (Sim, eu sou egocêntrica assim.)

Mas o escritor me fez um favor. Ao matar a lenda e trazer uma voz “realista” para dentro do livro, o próprio Martel passou do plano divino para o humano diante dos meus olhos. Ele, sim, é feito de carne e osso — e erra. (Na minha opinião, não necessariamente na do júri do Man Booker Prize.) O livro é, sim, genial — mas não em sua totalidade. E isso tirou um pouco da pressão que eu sinto cada vez que coloco minha caneta no papel. Uma lição para a perfeccionista em mim. Sua desdivinação me salvou num sentido simbolicamente religioso, aparentado com a própria moral do livro.

A saber, a parte emocionante do prefácio foi a sua confissão pública de fracassos passados: um livro que escreveu e a crítica ignorou, partindo seu coração; um segundo que se desfez em pó antes mesmo de ser publicado; a sua fome de vida, a gana de sobreviver e chegar do outro lado. Num certo sentido, a história de Pi Patel é a história do autor. Sua resiliência. Sua humanidade. E aprender essa humildade foi mais um capítulo da minha lição.


Rehab

Segunda-feira, Setembro 15, 2008

Meu nome é Camila e eu sou uma leitora compulsiva.

O primeiro passo é admitir, não é? Aí está. Descoberta fresca, que veio à luz da maneira mais árdua: com um jejum que mal começou e já está me causando síndrome de abstinência.

Eu sou uma escrava da leitura.

O leitor chatonildo, que estava prestando atenção na aula quando deveria estar jogando truco, vai dizer que escravos somos todos. Yadda yadda. Não estou fazendo crítica social. Estou falando de vício. Tortura. Bola de ferro no pé.

Imagine você, caro leitor, que estou proibida de ler por uma semana. Longa história. O que importa é que, desta manhã até segunda-feira que vem, a única coisa que posso ler é o material do curso em questão, delineando as tarefas da semana. Nada de jornal, UOL, blogs, revistas. E, principalmente, livros.

Logo de manhã o problema já se impôs. Minha mãe ligou atrás de um dado que, óbvio, estava no rodapé de um documento escrito. Tive de ler um pedaço do texto, não teve jeito. Era uma matéria de urgência. Me perdoei a escorregada porque era a primeira coisa do dia, “não estava valendo ainda”.

Mas o dia corre. São 11h, agora, e já estou tendo uma semi-síncope. O que eu vou fazer comigo mesma por uma semana inteira sem ler?

Foi aí que me ocorreu: o meu tradicional “eu sou feliz com a minha própria companhia” é uma pataquada. Eu sou feliz, muito feliz, radiante, inebriada, até, na companhia de livros. Mas livros têm vida. Livros têm idéias. Livros são um condensado dos pensamentos de outras pessoas num formato compacto e fácil de transportar. Eu nem sei como me viro na minha própria companhia por períodos longos de tempo — porque raramente me dou a chance de viver assim.

Eu acho que nunca na vida fui ao banheiro sem leitura. Se o livro está me agarrando pelos cabelos, eu o levo até pra acompanhar o mais rápido xixi do mundo, e acabo ficando lá sentada, sem fazer nada, pra não interromper o fluxo da história.

Eu sempre tenho um livro na bolsa. Mesmo que saia de carro, o livro vem junto. Nunca se sabe o que se irá encontrar do lado de lá. Quando ando de transporte público, muitas vezes tenho um livro e uma revista, já que um é mais fácil de segurar que o outro, caso eu não consiga um assento; e às vezes os livros são dois, se um deles parecer estar chegando ao fim, ou se preciso de dois humores diferentes para o dia.

Se vamos viajar, preciso de um livro. Não leio no carro, mas o que fazer quando o marido vai ao banheiro, ou se ele adormecer antes de mim? Ler, é claro.

Outro dia, saímos de casa às pressas e acabei esquecendo minhas muletas. Chegando lá, não dava muito pra conversar. Havia um silêncio de hospital na sala de espera. Levamos olhadas feias por sussurrar. O jeito era calar a boca. Sem livro! Sem revista! Levantei e peguei uma pilha de folhetos explicando como pedir benefício do governo se você é mãe solteira ou deficiente físico. E os li, do começo ao fim. Provavelmente, o equivalente de um alcoólatra beber perfume na falta de uísque.

E não é só a falta de livros que mata. Meu computador já apitou 17 vezes na última hora anunciando novos emails que eu não posso abrir. (Desliguei o som, mas tem um maldito pop-up que me salta na cara.) Não posso estudar. Não posso pesquisar informações no Google. Não posso nem consultar as malditas páginas amarelas. É uma vida impossível.

Mas posso escrever. E a idéia do jejum é justamente essa: parar de entupir as veias com as palavras dos outros para deixar que as suas circulem. Pelo tamanho desse choramingo, vejo que já está fazendo efeito. Mas não sem calafrios.


Verdes males

Terça-feira, Julho 1, 2008

Em tempos recentes fui acometida por um surto de affluenza, e só me dei conta depois de ler um livro sobre o assunto.

Críticas ao estilo e a seu método científico à parte, o trabalho tem o mérito de pôr o assunto na roda. Em sua tese, o autor demonstra que dinheiro não traz felicidade, mas não posto exatamente assim. O argumento é que a caça insana ao dinheiro transforma as pessoas em Tios Patinhas estressados e de mal com a vida.

O vírus da affluenza, ele define, têm vários sintomas. Você pode apresentar um só, ou todos, nos mais diferentes graus. São eles: obsessão com sucesso financeiro, preocupação com aparências, ansiedade social, busca por status, inveja do dinheiro alheio, desejo compulsivo por mais mais mais.

No meu caso, acho que tive (e ainda tenho) um pouco de cada. Não fiquei doente de cair, mas perturbada, sim. Pra vocês terem uma idéia, foi por causa disso que este Diário reapareceu na blogosfera. Eu estava lançando um projeto de enriquecimento e precisava de um meio para organizar as minhas idéias.

Não sei bem como começou. Só sei que, um belo dia, me dei conta de que estava passando oito horas por dia no trabalho para trazer X para casa, enquanto meus conhecidos, que haviam estudado tanto quanto eu e dedicavam-se igualmente, estavam ganhando 2X ou 3X. Só uma pobre coitada, professora, fugia à regra.

Eu sei que é de uma lentidão sem tamanho da minha parte perceber isso aos vinte e muito anos, já que disparidade salarial não é exatamente um assunto novo, e uns três ou quatro pensadores por aí já se puseram a discorrer sobre o assunto. Mas, como já contei por aqui, cresci em um ambiente familiar em que dinheiro realmente nunca foi assunto e prosperidade monetária não foi especialmente encorajada em mim e no meu irmão. Empregabilidade, sim, mas tanto faria se como enfermeira ou astronauta.

Em vez de agradecer aos céus por ter pais equilibrados, comecei a cultivar uma ganância tardia. E, como todo sentimento novo, ela veio meio desmedida e atrapalhada. Comecei a devorar notícias de negócios com três olhos abertos na expectativa de encontrar uma brecha para um empreendimento infalível. Passei a avaliar toda e qualquer carreira como um possível trampolim para uma vida mais endinheirada. Estava preparada para vender a alma por um dinheiro que, convenhamos, não está me fazendo falta.

Como foi que eu deixei de ser aquela pessoa despreocupada com o tamanho do meu salário para virar essa monstra interesseira, eu me perguntei, depois que comecei a me reconhecer, com certa dor, nas páginas do Oliver James.

Avaliação errada, cara.

Eu olhei para o problema da minha carreira e não soube identificar com precisão a fonte da minha angústia. Ganhar 3X (ou 10X, ou 5000X) me faria mais orgulhosa do meu emprego? Faria com que eu levantasse da cama mais ou menos na hora, em vez de ter de me arrastar pra estação atrasada e chorando quase todo santo dia? Tornaria a perspectiva de fazer o que faço hoje pelo resto da vida mais palatável? Não, não e não.

Foi aí que eu entendi quais eram, realmente, as incógnitas dessa questão. Número 1, um pesar doído pela perda do único trabalho prazeroso que realizei nos últimos muitos anos. Número 2, um sofrimento agudo por descobrir amarras novas em torno dos meus pulsos me impedindo de ir atrás de algo que tape esse buraco.

Reconhecer isso não resolve o meu problema. Eu continuo tão perdida quanto antes, senão mais, já que aquilo que havia vislumbrado como cura para o meu mal não vai fazer diferença alguma. Mas pelo menos posso parar de correr atrás da maldita cenoura enquanto não encontro uma saída de verdade.


Das incongruências do matrimônio

Quarta-feira, Junho 25, 2008

Casamento é divertido, quentinho e faz bem pra saúde, mas nem tudo é perfeito, como é de conhecimento geral. Saia por aí perguntando e ouvirá preleções interessantes sobre a divisão dos afazeres domésticos, a administração das finanças, o regime sexual, a educação da cria.

Do alto das minhas bodas de oito meses, ainda não deparei com esses obstáculos. (Ou não mais, depois de treinar o marido a botar o lixo pra fora.) Apesar disso, não estou isenta de dificuldades. Pessoalmente, minhas picuinhas com essa milenar instituição social são duas: minha sogra e a escassez de Espaço Individual.

A velha é ruim pra caralho, vai durar pra sempre. Ou seja, não há nada que eu possa fazer a esse respeito, a não ser rezar e sentir pena de mim mesma. Mas pelo Espaço Individual (assim mesmo, com maiúsculas), é possível lutar.

Na minha casa nós tomamos café da manhã juntos, cozinhamos juntos, vemos TV (er, DVDs no computador, porque não temos TV) juntos, lemos na cama juntos. O que é uma delícia 99% do tempo. Mas as minhas células eremitas choram de saudade daqueles momentos de absoluta solidão em que eu podia tomar café, cozinhar, ver filmes e ler em perfeito silêncio. Não que a solitude mude essas atividades de maneira prática – é mais uma sensação de estar em retiro espiritual. Só eu e mim mesma, e Deus (ou Deusa. Ou deuses. Sei lá eu).

Foi por isso que, quando Mr G disse que iria viajar nesse último fim de semana para a despedida de solteiro de um amigo, botei um círculo vermelho no calendário e comecei a contagem regressiva: 180 dias, 179, 178… Me preparei adequadamente. Fiz reserva num hotel spa, botei montes de leituras na mala.

E sábado foi mesmo um dia iluminado.

No domingo eu não via a hora de ele voltar pra casa.

Oito meses e o Espaço Individual já não é mais o mesmo.