London calling

Segunda-feira, Setembro 14, 2009

Demora-se um pouco para virar parte da fauna local quando se muda de país (/estado/cidade/bairro). Mas, uma vez cruzado o portal, é muito fácil perder aquele interesse curioso que têm os forasteiros. A gente para de observar. Quase sempre é preciso alguém de fora para abrir de novo os nossos olhos para as particularidades do nosso cantinho do mundo.

Meus pais acabam de deixar Londres depois de oito dias de intensa atividade turística. É a segunda visita deles desde que mudei para cá e tínhamos combinado que, dessa vez, seguiríamos uma programação leve, caseira, com tempo para relaxar. Não funcionou, é claro; a cidade nos seduziu e viramos, de novo, seus andarilhos. E que bom que foi assim. Uma delícia redescobrir por que é que a gente se apaixonou um dia, quando o relacionamento já caiu na rotina.


Enquanto isso, em uma nada cool Britannia

Segunda-feira, Julho 28, 2008

A contagem regressiva para a viagem chegou naquele ponto em que cada semana demora um mês pra passar. As passagens foram marcadas, o empacotamento encontra-se em estado avançado e a maior parte das despedidas já passou. Agora, é esperar. O trabalho acaba na quinta. No fim de semana, Maracugina (sic) e sogra em quantidades proporcionais. O vôo sai segunda às 15h10 e, depois disso, é tudo um grande mistério. Mas sem sogra. Sem. So-gra.

Enquanto isso, o verão segue a toda, fritando a pele e derretendo o cérebro. Verão, aqui, é aquela época do ano em que todas as mulheres usam Havainas (as legítimas) pra trabalhar e acham que tudo bem. A temporada é sinônimo de baldes de Pimm’s, casamentos, sorveteiros em vans, pernas brancas — e outras partes normalmente mais privadas do corpo — à mostra nos parques públicos. Carros conversíveis surgem como enxame ao primeiro sinal de sol. Os pássaros cantam, a grama domina o mundo, o governo proíbe o uso de mangueiras.

Para mim, mais do que tudo, a estação é o que torna tolerável um dos mais insuportáveis hábitos ingleses: o almoço frio.

Todo mundo adora falar mal da cozinha inglesa, mas devo dizer que, depois de dois anos e meio morando na ilha, ainda não consegui me convencer de que o povo aqui come tão mal assim. Minto: come-se mal, sim, mas acredito que por opção. Londres, pelo menos, não difere de São Paulo em nada nesse quesito. Tem cardápio pra tudo o que é gosto, do mais trash kebab ao mais surreal mingau de lagostins, e comida de todas as nacionalidades possíveis. Se a comida inglesa típica não apetece, não faltam mesas que ofereçam alternativas mais sutis, mais saudáveis, mais ousadas. E se não está feliz, fogão, meu filho. Como em qualquer lugar do mundo. Como se arroz com feijão fosse a oitava maravilha do mundo, também.

O real problema da culinária local não é a culinária local, mas o desprezo que os locais parecem ter pela culinária antes das seis. Dita uma certa norma tácita que, na hora do almoço, em dia de semana, comem-se sanduíches. Wraps. Saladas de macarrão. Torta de carne de porco. Peão ou CEO, tanto faz — se não é almoço de negócios ou um luxo ocasional, os ingleses tiram seus repastos meridianos diretamente da geladeira.

Nos supermercados há prateleiras específicas para comes portáteis; ficam perto da porta, para economizar tempo. Além dos já citados “pratos principais”, há iogurtes com colherinha, pedaços de queijo em tamanho individual, pastéis indianos, mini-saladas de frutas, batatinhas. Ao redor dos escritórios, abundam cafés que servem esses e outros, er, quitutes pra levar, e até mesmo farmácias investem pesado no setor do almoço ambulante.

Pode-se argumentar que um alimento frio oferece as mesmas qualidades que a sua contraparte quente, mas meu estômago não se convence. Todo lanche tem gosto de improviso. Toda refeição fica com cara de piquenique.

Na minha equipe, eu sou vista como má influência porque arrasto os colegas pro pub uma vez por semana. Eu não sou louca por comida de pub — essa, sim, a típica comida gorda, nutricionalmente pobre e sem originalidade desta terra –, mas, como acaba sendo a minha única oportunidade de almoçar comida quente em dias úteis, abraço a chance com fúria. Fumacinha saindo do prato e comida servida à mesa são dois afagos psicológicos de que eu preciso.

Mas, no verão, tudo bem. Não ligo, e até gosto, de sentar num parque com as canelas pálidas à mostra e me espalhar pela grama fofa enquanto como meu lanche e um sorvete.

Pelo menos até segunda-feira.


As voltas do gigante

Segunda-feira, Junho 30, 2008

Pra quem cresceu achando que Retorno de Saturno era um nome hippie para histeria de mulheres pré-balzaquianas, estou afetada demais pela coisa, eu acho. Se bem que isso não prova nada — talvez eu seja apenas mais uma quase-trintona louca querendo pôr a culpa nos astros. De uma maneira ou de outra, os fatos são que 1) esse ano eu completo 28 e 2) esse ano tá foda.

Nas últimas três semanas apenas eu cheguei à conclusão de que quero: abandonar o jornalismo e virar tradutora em tempo integral; fazer uma pós em Lingüística; escrever um romance; largar tudo e virar psicanalista; lançar uma revista independente; parar de trabalhar para criar os meus ainda não existentes filhos; não ter filhos; ter filhos desde que possa criá-los junto da minha família no Brasil; ter filhos desde que eu possa criá-los em uma sociedade menos materialista; ter filhos desde que eu possa criá-los em qualquer lugar do mundo longe da minha sogra; abrir um negócio pontocom; terminar amizades que me fazem competitiva e louca; alimentar ainda mais amizades que me fazem competitiva e morrer louca tentando provar que eu ainda sou tudo aquilo que comecei a ser, e larguei; vender a casa e comprar uma caixa de sapatos em Londres; vender a casa e comprar um sítio; me jogar de uma ponte; me jogar de um prédio alto; me jogar de um avião.

Pra que lado estou pendendo? Nem idéia. Amanhã eu nem reconhecerei esses impulsos. Esse ano tá foda.