Verdes males

Terça-feira, Julho 1, 2008

Em tempos recentes fui acometida por um surto de affluenza, e só me dei conta depois de ler um livro sobre o assunto.

Críticas ao estilo e a seu método científico à parte, o trabalho tem o mérito de pôr o assunto na roda. Em sua tese, o autor demonstra que dinheiro não traz felicidade, mas não posto exatamente assim. O argumento é que a caça insana ao dinheiro transforma as pessoas em Tios Patinhas estressados e de mal com a vida.

O vírus da affluenza, ele define, têm vários sintomas. Você pode apresentar um só, ou todos, nos mais diferentes graus. São eles: obsessão com sucesso financeiro, preocupação com aparências, ansiedade social, busca por status, inveja do dinheiro alheio, desejo compulsivo por mais mais mais.

No meu caso, acho que tive (e ainda tenho) um pouco de cada. Não fiquei doente de cair, mas perturbada, sim. Pra vocês terem uma idéia, foi por causa disso que este Diário reapareceu na blogosfera. Eu estava lançando um projeto de enriquecimento e precisava de um meio para organizar as minhas idéias.

Não sei bem como começou. Só sei que, um belo dia, me dei conta de que estava passando oito horas por dia no trabalho para trazer X para casa, enquanto meus conhecidos, que haviam estudado tanto quanto eu e dedicavam-se igualmente, estavam ganhando 2X ou 3X. Só uma pobre coitada, professora, fugia à regra.

Eu sei que é de uma lentidão sem tamanho da minha parte perceber isso aos vinte e muito anos, já que disparidade salarial não é exatamente um assunto novo, e uns três ou quatro pensadores por aí já se puseram a discorrer sobre o assunto. Mas, como já contei por aqui, cresci em um ambiente familiar em que dinheiro realmente nunca foi assunto e prosperidade monetária não foi especialmente encorajada em mim e no meu irmão. Empregabilidade, sim, mas tanto faria se como enfermeira ou astronauta.

Em vez de agradecer aos céus por ter pais equilibrados, comecei a cultivar uma ganância tardia. E, como todo sentimento novo, ela veio meio desmedida e atrapalhada. Comecei a devorar notícias de negócios com três olhos abertos na expectativa de encontrar uma brecha para um empreendimento infalível. Passei a avaliar toda e qualquer carreira como um possível trampolim para uma vida mais endinheirada. Estava preparada para vender a alma por um dinheiro que, convenhamos, não está me fazendo falta.

Como foi que eu deixei de ser aquela pessoa despreocupada com o tamanho do meu salário para virar essa monstra interesseira, eu me perguntei, depois que comecei a me reconhecer, com certa dor, nas páginas do Oliver James.

Avaliação errada, cara.

Eu olhei para o problema da minha carreira e não soube identificar com precisão a fonte da minha angústia. Ganhar 3X (ou 10X, ou 5000X) me faria mais orgulhosa do meu emprego? Faria com que eu levantasse da cama mais ou menos na hora, em vez de ter de me arrastar pra estação atrasada e chorando quase todo santo dia? Tornaria a perspectiva de fazer o que faço hoje pelo resto da vida mais palatável? Não, não e não.

Foi aí que eu entendi quais eram, realmente, as incógnitas dessa questão. Número 1, um pesar doído pela perda do único trabalho prazeroso que realizei nos últimos muitos anos. Número 2, um sofrimento agudo por descobrir amarras novas em torno dos meus pulsos me impedindo de ir atrás de algo que tape esse buraco.

Reconhecer isso não resolve o meu problema. Eu continuo tão perdida quanto antes, senão mais, já que aquilo que havia vislumbrado como cura para o meu mal não vai fazer diferença alguma. Mas pelo menos posso parar de correr atrás da maldita cenoura enquanto não encontro uma saída de verdade.


As voltas do gigante

Segunda-feira, Junho 30, 2008

Pra quem cresceu achando que Retorno de Saturno era um nome hippie para histeria de mulheres pré-balzaquianas, estou afetada demais pela coisa, eu acho. Se bem que isso não prova nada — talvez eu seja apenas mais uma quase-trintona louca querendo pôr a culpa nos astros. De uma maneira ou de outra, os fatos são que 1) esse ano eu completo 28 e 2) esse ano tá foda.

Nas últimas três semanas apenas eu cheguei à conclusão de que quero: abandonar o jornalismo e virar tradutora em tempo integral; fazer uma pós em Lingüística; escrever um romance; largar tudo e virar psicanalista; lançar uma revista independente; parar de trabalhar para criar os meus ainda não existentes filhos; não ter filhos; ter filhos desde que possa criá-los junto da minha família no Brasil; ter filhos desde que eu possa criá-los em uma sociedade menos materialista; ter filhos desde que eu possa criá-los em qualquer lugar do mundo longe da minha sogra; abrir um negócio pontocom; terminar amizades que me fazem competitiva e louca; alimentar ainda mais amizades que me fazem competitiva e morrer louca tentando provar que eu ainda sou tudo aquilo que comecei a ser, e larguei; vender a casa e comprar uma caixa de sapatos em Londres; vender a casa e comprar um sítio; me jogar de uma ponte; me jogar de um prédio alto; me jogar de um avião.

Pra que lado estou pendendo? Nem idéia. Amanhã eu nem reconhecerei esses impulsos. Esse ano tá foda.