Curriculum vitae

Terça-feira, Agosto 19, 2008

Meu diploma diz que sou jornalista. (Ou diria, se eu tivesse me dado ao trabalho de ir lá buscá-lo). E tem sido essa a minha profissão há quase uma década. Mas eu não estou jornalista. Estou dona-de-casa. Estudante de tradução. Escritora assustada tentando sair do casulo. O título de jornalista já (ou pelo menos nesse momento) não me cabe.

Que tal geografia? Faz diferença para você, leitor, onde moro, onde nasci ou de onde vieram os meus avós? Ajuda saber a minha idade? A cor dos meus olhos? Preferências culinárias? Meu sexo? Te influencia no gostar ou não de um texto saber como o autor descreve a si?

Suponha que você, como eu, tenha um espaço assim para preencher. Na orelha de um livro, no pé de um artigo, no seu blog. O que você faz com ele? Esclarece o óbvio? Ou coloca detalhes identificadores da sua pessoa que talvez só sejam verdade 10% do tempo? Você se enche de rótulos para não se admitir comum?

Eu poderia dizer que sou dançarina do ventre amadora. Que minha banda predileta é Ramones. Que meu cérebro leitor tem um gosto estranhamente diversificado, com um tesão todo especial, em partes quase iguais, por Marian Keyes e José Saramago. Que eu uso gírias do tempo do onça, que eu sou Vigilante do Peso, que eu não tenho medo de morrer (mas meu medo de dor é desumano e eu entregaria qualquer segredo se torturada).

Mas tudo isso é passageiro. Fatos que formam parte de mim, mas não me definem. O problema é descobrir o que o faz.


Segunda-feira de cinzas

Segunda-feira, Julho 14, 2008

Por cima do mar de mesas ela vê o céu. O dia é de um cinza lívido. De tempo em tempo, revezam-se o frio e a chuva, como se tentassem cobrir entre eles, com recursos partilhados, as horas esparramadas do dia.

Expectativas, fantasias, planos, profecias. Que diferença há entre uma e outra? No fim das contas, estão todas contidas nela. Confinadas. Por mais alto que grite o seu desejo, ninguém lá fora consegue escutá-lo. Ou, se o faz, não liga a mínima, porque no mundo há fome e guerra e morte e desgraça. O problema dela é apenas o futuro.

Dentro dela os pensamentos são um peixe morto levado a nadar pelo sopro do motor de ar. Idéias do que foi ou poderia ter sido. Dor pelo que poderia vir a ser. Um desgaste sofrido e inútil. Quer desligar o movimento e poder cair inerte.

Ela continua girando na superfície, os olhos revirando no meio do aguaceiro, rezando, em sussurro, por uma pane que tire o motor de circulação. Porém o motor é ela quem controla. O motor é ela. E são ela o frio e a chuva que escurecem seus próprios dias. Mas ela continua a girar, porque sua fé — estúpida, injustificada e contra todas as provas em contrário — é persistente como erva-daninha.


Quase jurada

Sexta-Feira, Abril 18, 2008

Recebi uma carta da rainha, solicitando meus serviços.

Her Majesty (OK, Her Majesty’s Courts Service, mas tenho certeza de que dá na mesma) tirou meu nome do chapéu e me escreveu chamando pra ser membro do júri popular. Fui intim…, er, convidada a comparecer dia 19 de maio no Tribunal da Coroa de Blackfriars, sob pena de pagar multa de £1,000 se eu não obedecer. Medo!

Não é mau negócio de todo. Me anima a idéia de participar de um julgamento interessante e ajudar a botar na cadeia, por exemplo, um adolescente delinqüente que tenha matado alguém a chutes. Ou inocentar um pobre trabalhador atormentado que tenha acidentalmente empurrado seu chefe sob um trem. E eles até pagam pelo seu tempo.

Só tem um porém. Esqueceram de checar meus registros, e acontece que eu não sou elegível. Você tem de ser maior de 18, ter menos de 70, ter morado no país por um mínimo de 5 anos, nunca ter sido preso e não apresentar sintomas psicóticos.

E não, eu não vou revelar por que critério(s) eu fui eliminada da lista.


Viva a hipocondria

Quinta-feira, Abril 10, 2008

Começo

Sinto uma dor esquisita no seio. Marco uma consulta com o médico.

Fim

Médico diz que não preciso me preocupar. Todos vivem felizes para sempre.

Meio

Ligo para a clínica na terça-feira. Consigo um encaixe para quinta de manhã.

Passo a tarde de terça muda. À noite presenteio o marido com minhas reflexões. “Eu sei que às vezes eu reclamo da vida. Mas não quer dizer que eu queira morrer. Eu só quero que as coisas melhorem. Será que Deus entendeu errado?” Ou: “Se eu morrer, eu quero que você se case de novo e tenha filhos.”

Na quarta à tarde já pesquisei todos os tipos de reconstrução de mama disponíveis.

Passo a noite em claro. No dia seguinte chego para a consulta 15 minutos antes e quase tenho um ataque cardíaco na sala de espera.

Tenho uma crise de soluços explicando ao médico o que há de errado.

Médico ouve, questiona, examina e diz que não é nada. Respiro fundo e quase choro de alívio.

Mas ah, peraí, tem um caroço aqui (completamente desconectado da causa primeira da consulta). Respiro fundo e engasgo.

Sou indicada a um especialista.

Duas semanas separam as consultas. Nesse intervalo, ciclos diários se repetem: penso que vou morrer e entro em pânico; esqueço o assunto; penso que morrer tem suas vantagens; lembro que o índice de fatalidade de câncer de mama é baixo e desencano; pesquiso efeitos colaterais de radioterapia; esqueço o assunto; tenho uma ou duas conversas mórbidas com o Rob; vou dormir.

Chega o dia da consulta. Passo duas horas sendo levada de um lado pro outro de roupão rosa em uma clínica.

O ultrassom revela um cisto simples que não requer biópsia nem outras providências.