Meu diploma diz que sou jornalista. (Ou diria, se eu tivesse me dado ao trabalho de ir lá buscá-lo). E tem sido essa a minha profissão há quase uma década. Mas eu não estou jornalista. Estou dona-de-casa. Estudante de tradução. Escritora assustada tentando sair do casulo. O título de jornalista já (ou pelo menos nesse momento) não me cabe.
Que tal geografia? Faz diferença para você, leitor, onde moro, onde nasci ou de onde vieram os meus avós? Ajuda saber a minha idade? A cor dos meus olhos? Preferências culinárias? Meu sexo? Te influencia no gostar ou não de um texto saber como o autor descreve a si?
Suponha que você, como eu, tenha um espaço assim para preencher. Na orelha de um livro, no pé de um artigo, no seu blog. O que você faz com ele? Esclarece o óbvio? Ou coloca detalhes identificadores da sua pessoa que talvez só sejam verdade 10% do tempo? Você se enche de rótulos para não se admitir comum?
Eu poderia dizer que sou dançarina do ventre amadora. Que minha banda predileta é Ramones. Que meu cérebro leitor tem um gosto estranhamente diversificado, com um tesão todo especial, em partes quase iguais, por Marian Keyes e José Saramago. Que eu uso gírias do tempo do onça, que eu sou Vigilante do Peso, que eu não tenho medo de morrer (mas meu medo de dor é desumano e eu entregaria qualquer segredo se torturada).
Mas tudo isso é passageiro. Fatos que formam parte de mim, mas não me definem. O problema é descobrir o que o faz.
Escrito por CG 