A labuta nossa de cada dia… ou não

Quinta-feira, Agosto 13, 2009

Eu tenho profundos respeito e admiração por pessoas que não trabalham em escritórios (redações inclusive). Porque a verdade é que nós, o povo atrás de um computador, podemos enrolar pra cacete. Mas certas ocupações por aí afora requerem um nível de vigor extraterrestre que a maioria de nós não tem.

Imagine que você é enfermeira em uma UTI. Se você está de ressaca, sem saco, com cólica, com tesão pelo gostoso do terceiro andar, foda-se você. O trabalho precisa ser feito. Não existe um ato equivalante a apertar Alt+Tab pra esconder a página do Facebook/site de decoração/email pessoal quando a sua chefe entra na sala. Se você não faz o seu trabalho direito, o paciente morre. Simples assim.

Não precisa envolver a vida de outra pessoa, não — às vezes, é simplesmente impossível matar tempo sem ser pego. Eu nem sempre enrolo na internet — eu também uso a técnica da flânerie. Bate-papo no bebedouro, café no meio da tarde, uma espiada no gostoso do terceiro andar. Coisas sem as quais o dia não passa. Mas se eu fosse caixa de supermercado, atriz de teatro ou fonoaudióloga, essas ferramentas não estariam disponíveis para mim. Teria de levar o show até o fim.

Diminuir o ritmo quase todo mundo pode. Não fazer praticamente nada por três dias seguidos é para poucos.

Essa semana minha cabeça está muito, muito longe daqui.


De repente, Califórnia

Terça-feira, Julho 22, 2008

Aconteceu assim:

Os americanos que pagam as contas lá de casa, por intermédio do salário do marido, decidiram que precisavam dele in loco para um projeto X. A oportunidade era boa demais pra gente pensar em recusar: distância da sogra, casa, carro, baixo índice pluviométrico. Eu já estava de joelhos com a primeira oferta. O resto é lucro.

Por mais que eu odeie minha vida miserável nesse site do inferno, manter meu emprego e trabalhar de casa — como fiz ano passado, no Brasil, nos meses pós-cirúrgicos da mamma — nos proporcionaria a chance de juntar dinheiro durante esse tempo. E, quando negociei com a chefia, o plano foi aprovado.

Agora o carimbos da embaixada chegaram, e, com eles, a notícia de que trabalhar de casa (ainda que para uma empresa estrangeira, recebendo pagamento em moeda estrangeira, em banco estrangeiro) é ilegal pelo L2 — o visto de acompanhante que me cabe. Ao que tudo indica, sua alma passa a pertencer ao IRS assim que você pisa nos EUA. Se eu quiser trabalhar, tenho de pedir um work permit que leva 90 dias pra ser aprovado.

São três mesinhos apenas. Dá uma vontadezinha de burlar a lei. Afinal, quem poderia provar o que eu faço dentro da minha casa, sem dinheiro nenhum trocando de mãos no país? Mas, se tem uma coisa que eu aprendi com a Glória Perez, é que com a Migra não se brinca.

E foi assim que, por força das circunstâncias, acabei na posição de ter de largar o meu emprego. E não é culpa minha se eu tenho de ficar de pernas pro ar, por três meses, no ensolarado Orange County. A vida quis assim.


Há tempo de chorar, e tempo de rir

Segunda-feira, Abril 28, 2008

Semi-acordei com o sol, esta manhã. Virei de lado e voltei a dormir. Aí acordei de novo, li um pouquinho do meu livro, adormeci em cima dele. Agora acabo de sair da cama. Sorrindo.

Estou de pré-férias.

Ao todo, ficarei duas semanas fora. Meus pais chegam ao país na quinta, e aí vamos fazer turismo. Mas, até lá, tenho três dias pra não fazer na-da.

Eu não me lembro de jamais ter tirado férias ociosas em casa antes. Quase sempre preciso me matar de correr depois do trabalho pra terminar de fazer a mala, e aí faço o possível pra voltar com o mínimo de tempo possível entre a chegada e o recomeço da vida.

Ou então eu preciso tomar providências. Antes de vir pra cá, tive uma semana de folga entre deixar a revista e embarcar. Mas eu estava de mudança. Tinha 254.896.748.251 coisas pra resolver e todas as malas por fazer. Foi como sair de férias elevado à oitava potência.

Dessa vez, não. Estou de férias vagabundas, que o RH me forçou a tirar. E ainda que minha natureza obsessiva tenha se lembrado de pelo menos umas 15 pendências que podem ser resolvidas nesse intervalo, eu só preciso resolvê-las se quiser.

Eu não preciso ver a cara gorda e feia do meu chefe. Ou empurrar meus fellow commuters pra pegar um assento no trem. Talvez eu nem tire o pijama até a hora de pôr outro.

Em vez disso, posso re-assistir a todos os meus DVDs de época da BBC (oh, Mr Darcy!). Arrumar armários. Fazer compras. Dormir de tarde. Aliás, voltar a dormir no meio da manhã. Falou aí.