A labuta nossa de cada dia… ou não

Quinta-feira, Agosto 13, 2009

Eu tenho profundos respeito e admiração por pessoas que não trabalham em escritórios (redações inclusive). Porque a verdade é que nós, o povo atrás de um computador, podemos enrolar pra cacete. Mas certas ocupações por aí afora requerem um nível de vigor extraterrestre que a maioria de nós não tem.

Imagine que você é enfermeira em uma UTI. Se você está de ressaca, sem saco, com cólica, com tesão pelo gostoso do terceiro andar, foda-se você. O trabalho precisa ser feito. Não existe um ato equivalante a apertar Alt+Tab pra esconder a página do Facebook/site de decoração/email pessoal quando a sua chefe entra na sala. Se você não faz o seu trabalho direito, o paciente morre. Simples assim.

Não precisa envolver a vida de outra pessoa, não — às vezes, é simplesmente impossível matar tempo sem ser pego. Eu nem sempre enrolo na internet — eu também uso a técnica da flânerie. Bate-papo no bebedouro, café no meio da tarde, uma espiada no gostoso do terceiro andar. Coisas sem as quais o dia não passa. Mas se eu fosse caixa de supermercado, atriz de teatro ou fonoaudióloga, essas ferramentas não estariam disponíveis para mim. Teria de levar o show até o fim.

Diminuir o ritmo quase todo mundo pode. Não fazer praticamente nada por três dias seguidos é para poucos.

Essa semana minha cabeça está muito, muito longe daqui.


Verbete do dia: Consultores de Recrutamento

Terça-feira, Fevereiro 24, 2009

Definição: Carnívoros sanguinários, também conhecidos como agentes de seleção ou recolocação. Pertencem à classe dos profissionais de RH, de quem herdam a inutilidade, a visão limitada e o gosto pela burocracia, mas apresentam importantes distinções. Enquanto as principais motivações dos RH-ianos são cortar gastos e proteger a empresa da influência maléfica dos funcionários, recrutadores têm como meta ganhar comissões (ver hábitos alimentares).

Outras de suas características marcantes podem ser explicadas pelo hibridismo desse animal, que é resultado de um cruzamento com corretores de imóveis. Com esses, os agentes de seleção compartilham a capacidade de mentir sem constrangimento e a atitude vendedora. Mas corretores costumam ligar para dizer se sua oferta foi aceita.

Hábitat: Vivem no limbo entre o mundo corporativo bullshit, onde gostariam de estar, e o universo do desemprego, onde provavelmente já estiveram, embora atualmente já não demonstrem sinais disso (como, por exemplo, compaixão pelos que ali habitam).

Hábitos alimentares: A espécie alimenta-se de dinheiro, mas aprecia também uma boa humilhação alheia, o que nem sempre trabalha a seu favor. Enquanto seu objetivo é conquistar as comissões mais altas possíveis, seus ganhos tendem a ser apenas medianos, pois gostam de baixar o futuro salário dos candidatos (em que suas comissões se baseiam). São capazes de grandes esforços para descobrir o mais mínimo dos salários que uma pessoa é capaz de aceitar — e aí oferecem 10% a menos.

Uma cortesia do Pequeno Dicionário Intramuros de Pestes, Vermes e Criaturas Daninhas.


Curriculum vitae

Terça-feira, Agosto 19, 2008

Meu diploma diz que sou jornalista. (Ou diria, se eu tivesse me dado ao trabalho de ir lá buscá-lo). E tem sido essa a minha profissão há quase uma década. Mas eu não estou jornalista. Estou dona-de-casa. Estudante de tradução. Escritora assustada tentando sair do casulo. O título de jornalista já (ou pelo menos nesse momento) não me cabe.

Que tal geografia? Faz diferença para você, leitor, onde moro, onde nasci ou de onde vieram os meus avós? Ajuda saber a minha idade? A cor dos meus olhos? Preferências culinárias? Meu sexo? Te influencia no gostar ou não de um texto saber como o autor descreve a si?

Suponha que você, como eu, tenha um espaço assim para preencher. Na orelha de um livro, no pé de um artigo, no seu blog. O que você faz com ele? Esclarece o óbvio? Ou coloca detalhes identificadores da sua pessoa que talvez só sejam verdade 10% do tempo? Você se enche de rótulos para não se admitir comum?

Eu poderia dizer que sou dançarina do ventre amadora. Que minha banda predileta é Ramones. Que meu cérebro leitor tem um gosto estranhamente diversificado, com um tesão todo especial, em partes quase iguais, por Marian Keyes e José Saramago. Que eu uso gírias do tempo do onça, que eu sou Vigilante do Peso, que eu não tenho medo de morrer (mas meu medo de dor é desumano e eu entregaria qualquer segredo se torturada).

Mas tudo isso é passageiro. Fatos que formam parte de mim, mas não me definem. O problema é descobrir o que o faz.


Verdes males

Terça-feira, Julho 1, 2008

Em tempos recentes fui acometida por um surto de affluenza, e só me dei conta depois de ler um livro sobre o assunto.

Críticas ao estilo e a seu método científico à parte, o trabalho tem o mérito de pôr o assunto na roda. Em sua tese, o autor demonstra que dinheiro não traz felicidade, mas não posto exatamente assim. O argumento é que a caça insana ao dinheiro transforma as pessoas em Tios Patinhas estressados e de mal com a vida.

O vírus da affluenza, ele define, têm vários sintomas. Você pode apresentar um só, ou todos, nos mais diferentes graus. São eles: obsessão com sucesso financeiro, preocupação com aparências, ansiedade social, busca por status, inveja do dinheiro alheio, desejo compulsivo por mais mais mais.

No meu caso, acho que tive (e ainda tenho) um pouco de cada. Não fiquei doente de cair, mas perturbada, sim. Pra vocês terem uma idéia, foi por causa disso que este Diário reapareceu na blogosfera. Eu estava lançando um projeto de enriquecimento e precisava de um meio para organizar as minhas idéias.

Não sei bem como começou. Só sei que, um belo dia, me dei conta de que estava passando oito horas por dia no trabalho para trazer X para casa, enquanto meus conhecidos, que haviam estudado tanto quanto eu e dedicavam-se igualmente, estavam ganhando 2X ou 3X. Só uma pobre coitada, professora, fugia à regra.

Eu sei que é de uma lentidão sem tamanho da minha parte perceber isso aos vinte e muito anos, já que disparidade salarial não é exatamente um assunto novo, e uns três ou quatro pensadores por aí já se puseram a discorrer sobre o assunto. Mas, como já contei por aqui, cresci em um ambiente familiar em que dinheiro realmente nunca foi assunto e prosperidade monetária não foi especialmente encorajada em mim e no meu irmão. Empregabilidade, sim, mas tanto faria se como enfermeira ou astronauta.

Em vez de agradecer aos céus por ter pais equilibrados, comecei a cultivar uma ganância tardia. E, como todo sentimento novo, ela veio meio desmedida e atrapalhada. Comecei a devorar notícias de negócios com três olhos abertos na expectativa de encontrar uma brecha para um empreendimento infalível. Passei a avaliar toda e qualquer carreira como um possível trampolim para uma vida mais endinheirada. Estava preparada para vender a alma por um dinheiro que, convenhamos, não está me fazendo falta.

Como foi que eu deixei de ser aquela pessoa despreocupada com o tamanho do meu salário para virar essa monstra interesseira, eu me perguntei, depois que comecei a me reconhecer, com certa dor, nas páginas do Oliver James.

Avaliação errada, cara.

Eu olhei para o problema da minha carreira e não soube identificar com precisão a fonte da minha angústia. Ganhar 3X (ou 10X, ou 5000X) me faria mais orgulhosa do meu emprego? Faria com que eu levantasse da cama mais ou menos na hora, em vez de ter de me arrastar pra estação atrasada e chorando quase todo santo dia? Tornaria a perspectiva de fazer o que faço hoje pelo resto da vida mais palatável? Não, não e não.

Foi aí que eu entendi quais eram, realmente, as incógnitas dessa questão. Número 1, um pesar doído pela perda do único trabalho prazeroso que realizei nos últimos muitos anos. Número 2, um sofrimento agudo por descobrir amarras novas em torno dos meus pulsos me impedindo de ir atrás de algo que tape esse buraco.

Reconhecer isso não resolve o meu problema. Eu continuo tão perdida quanto antes, senão mais, já que aquilo que havia vislumbrado como cura para o meu mal não vai fazer diferença alguma. Mas pelo menos posso parar de correr atrás da maldita cenoura enquanto não encontro uma saída de verdade.


RH, escória da humanidade

Segunda-feira, Abril 21, 2008

Meus três tipos desfavoritos de gente: corretores de imóveis, mulheres sedentárias sem celulite e “profissionais de RH”.

Os dois primeiros serão poupados por hoje, porque estou boazinha. Os últimos me irritaram e vão pra forca.

Pra começo de conversa, nem nome de verdade essa profissão estúpida tem. Alguém por acaso diz que é “operador de jornalismo” ou “agente da medicina”? Não. Mas, em RH, é sempre assim. Diretor de RH, analista de RH, consultor de RH, a vaca do RH. E você fica achando que RH é um universo místico, uma inesgotável fonte de elementos preciosos, essenciais para o desenvolvimento, a sobrevivência e o conforto da civilização, algo que depende da manipulação de iniciados.

Hora da verdade: a assim chamada “gestão de recursos humanos” pertence à classe da “gestão de recursos financeiros”. O princípio básico é exatamente o mesmo – os recursos pertencem à empresa. Assim, podem ser auditados, investigados, inspecionados e manipulados como os “gestores” bem entenderem; alguns são vistos como investimentos, outros formam a base sólida da empresa, muitos são desperdiçados; empresas não gostam quando seus recursos vão parar na concorrência et cetera.

A última da empresa onde eu trabalho é uma medida para cortar o número de sickies. Um documento de seis páginas, sem contar os formulários anexos, foi distribuído hoje pela menina do RH. O propósito do calhamaço é revestir de corporate bullshit e uma burocracia horrenda um procedimento que costumava ser descomplicado – ficar doente, ligar pro chefe, melhorar, voltar a trabalhar. Simples.

Agora funciona assim:

  • O funcionário doente deve ligar para a firrrma até no máximo 9h30 da manhã avisando que está doente.
  • O recado deve ser dado ao chefe imediato ou ao RH, para quem a natureza da doença ser explicada, e uma previsão de retorno dada.
  • Colegas não podem ser usados como mensageiros. Se a ligação for feita antes de as pessoas acima chegarem, o funcionário deve gravar um recado ou mandar um email com telefone de contato. O chefe ou RH fará uma ligação, obrigatoriamente.
  • Recados deixados por familiares e amigos não serão aceitos a não ser que o funcionário esteja não apenas hospitalizado, mas impossibilitado de falar.
  • Caso o problema dure mais de um dia, relatórios telefônicos sobre o andamento da enfermidade são exigidos.
  • Ao retorno ao trabalho, o funcionário deve preencher um formulário e entregar ao RH, dando todo tipo de detalhe sobre o período de afastamento. Na seqüência, passará por uma entrevista com o chefe imediato, que deverá, por sua vez, preencher um outro formulário. Todos os documentos são arquivados nos registros do pobre infeliz para todo o infinito sempre.

Isso é só para coisinhas simples – uma diarréia, uma enxaqueca, uma gripe. Qualquer coisa que dure mais de 7 dias corridos envolve um processo que vocês não querem nem saber.

E essa é só mais uma gota no copo de peçonha do nosso RH. Por aqui, o clima é de total cuidado com a cuca, que a cuca te pega. Em janeiro, investiram libras pra caralho para instalar um sistema de ponto que marca não só nosso horário de entrada e saída, mas as idas ao banheiro também. Mês passado baniram todas as formas de messenger e instalaram um programa de comunicação interna cuja mensagem de abertura é “IT are watching you”.

E depois não sabem por que nego fica doente.