Aconteceu assim:
Os americanos que pagam as contas lá de casa, por intermédio do salário do marido, decidiram que precisavam dele in loco para um projeto X. A oportunidade era boa demais pra gente pensar em recusar: distância da sogra, casa, carro, baixo índice pluviométrico. Eu já estava de joelhos com a primeira oferta. O resto é lucro.
Por mais que eu odeie minha vida miserável nesse site do inferno, manter meu emprego e trabalhar de casa — como fiz ano passado, no Brasil, nos meses pós-cirúrgicos da mamma — nos proporcionaria a chance de juntar dinheiro durante esse tempo. E, quando negociei com a chefia, o plano foi aprovado.
Agora o carimbos da embaixada chegaram, e, com eles, a notícia de que trabalhar de casa (ainda que para uma empresa estrangeira, recebendo pagamento em moeda estrangeira, em banco estrangeiro) é ilegal pelo L2 — o visto de acompanhante que me cabe. Ao que tudo indica, sua alma passa a pertencer ao IRS assim que você pisa nos EUA. Se eu quiser trabalhar, tenho de pedir um work permit que leva 90 dias pra ser aprovado.
São três mesinhos apenas. Dá uma vontadezinha de burlar a lei. Afinal, quem poderia provar o que eu faço dentro da minha casa, sem dinheiro nenhum trocando de mãos no país? Mas, se tem uma coisa que eu aprendi com a Glória Perez, é que com a Migra não se brinca.
E foi assim que, por força das circunstâncias, acabei na posição de ter de largar o meu emprego. E não é culpa minha se eu tenho de ficar de pernas pro ar, por três meses, no ensolarado Orange County. A vida quis assim.