Família SUS

Segunda-feira, Junho 22, 2009

Primeiro dia do trabalho oficial. Nada muda, é claro, exceto o fato de eu não receber mais por hora (e, aliás, menos do que antes) e de, agora, ter um plano de previdência ridiculamente bom (não, sério, é sem noção).

Mas eu me sinto diferente, porque agora é pra valer. Não posso fazer de conta que é apenas uma parada temporária — se quiser fugir, tenho de dar três meses de aviso. Já tive endereços por menos tempo que isso.

Funcionarismo público, here I come.


Poker face

Sexta-Feira, Maio 29, 2009

Entrevistas de emprego não corroem os meus nervos. Negociações salariais, sim.

Meu trabalho atual começou como um frila fixo. Mês passado, soube que a vaga viraria permanente. Bom pra mim, certo? Não necessariamente. Somos um órgão público e, como tal, fazemos tudo da forma mais burocrática possível. Tive de preencher ficha de candidatura, passar por um processo formal de entrevistas com banca e até fazer teste.

A boa notícia é que me ofereceram o emprego. A má é que eu não estou inteiramente feliz com o salário. A pior ainda é que eu quero a vaga assim mesmo e sei que vou dizer sim – mas vou ter de jogar pôquer com a chefe durona se quiser arrancar uns dois tostões a mais.

Blefar me embrulha o estômago. E se as minhas mãos começarem a tremer? E se a segunda pessoa da fila estiver morrendo pra aceitar o trabalho por menos dinheiro? E se ela pagar (ou, nesse caso, não pagar) pra ver? E se, e se, e se?


Verbete do dia: Consultores de Recrutamento

Terça-feira, Fevereiro 24, 2009

Definição: Carnívoros sanguinários, também conhecidos como agentes de seleção ou recolocação. Pertencem à classe dos profissionais de RH, de quem herdam a inutilidade, a visão limitada e o gosto pela burocracia, mas apresentam importantes distinções. Enquanto as principais motivações dos RH-ianos são cortar gastos e proteger a empresa da influência maléfica dos funcionários, recrutadores têm como meta ganhar comissões (ver hábitos alimentares).

Outras de suas características marcantes podem ser explicadas pelo hibridismo desse animal, que é resultado de um cruzamento com corretores de imóveis. Com esses, os agentes de seleção compartilham a capacidade de mentir sem constrangimento e a atitude vendedora. Mas corretores costumam ligar para dizer se sua oferta foi aceita.

Hábitat: Vivem no limbo entre o mundo corporativo bullshit, onde gostariam de estar, e o universo do desemprego, onde provavelmente já estiveram, embora atualmente já não demonstrem sinais disso (como, por exemplo, compaixão pelos que ali habitam).

Hábitos alimentares: A espécie alimenta-se de dinheiro, mas aprecia também uma boa humilhação alheia, o que nem sempre trabalha a seu favor. Enquanto seu objetivo é conquistar as comissões mais altas possíveis, seus ganhos tendem a ser apenas medianos, pois gostam de baixar o futuro salário dos candidatos (em que suas comissões se baseiam). São capazes de grandes esforços para descobrir o mais mínimo dos salários que uma pessoa é capaz de aceitar — e aí oferecem 10% a menos.

Uma cortesia do Pequeno Dicionário Intramuros de Pestes, Vermes e Criaturas Daninhas.


De repente, Califórnia

Terça-feira, Julho 22, 2008

Aconteceu assim:

Os americanos que pagam as contas lá de casa, por intermédio do salário do marido, decidiram que precisavam dele in loco para um projeto X. A oportunidade era boa demais pra gente pensar em recusar: distância da sogra, casa, carro, baixo índice pluviométrico. Eu já estava de joelhos com a primeira oferta. O resto é lucro.

Por mais que eu odeie minha vida miserável nesse site do inferno, manter meu emprego e trabalhar de casa — como fiz ano passado, no Brasil, nos meses pós-cirúrgicos da mamma — nos proporcionaria a chance de juntar dinheiro durante esse tempo. E, quando negociei com a chefia, o plano foi aprovado.

Agora o carimbos da embaixada chegaram, e, com eles, a notícia de que trabalhar de casa (ainda que para uma empresa estrangeira, recebendo pagamento em moeda estrangeira, em banco estrangeiro) é ilegal pelo L2 — o visto de acompanhante que me cabe. Ao que tudo indica, sua alma passa a pertencer ao IRS assim que você pisa nos EUA. Se eu quiser trabalhar, tenho de pedir um work permit que leva 90 dias pra ser aprovado.

São três mesinhos apenas. Dá uma vontadezinha de burlar a lei. Afinal, quem poderia provar o que eu faço dentro da minha casa, sem dinheiro nenhum trocando de mãos no país? Mas, se tem uma coisa que eu aprendi com a Glória Perez, é que com a Migra não se brinca.

E foi assim que, por força das circunstâncias, acabei na posição de ter de largar o meu emprego. E não é culpa minha se eu tenho de ficar de pernas pro ar, por três meses, no ensolarado Orange County. A vida quis assim.