De repente, Califórnia

Terça-feira, Julho 22, 2008

Aconteceu assim:

Os americanos que pagam as contas lá de casa, por intermédio do salário do marido, decidiram que precisavam dele in loco para um projeto X. A oportunidade era boa demais pra gente pensar em recusar: distância da sogra, casa, carro, baixo índice pluviométrico. Eu já estava de joelhos com a primeira oferta. O resto é lucro.

Por mais que eu odeie minha vida miserável nesse site do inferno, manter meu emprego e trabalhar de casa — como fiz ano passado, no Brasil, nos meses pós-cirúrgicos da mamma — nos proporcionaria a chance de juntar dinheiro durante esse tempo. E, quando negociei com a chefia, o plano foi aprovado.

Agora o carimbos da embaixada chegaram, e, com eles, a notícia de que trabalhar de casa (ainda que para uma empresa estrangeira, recebendo pagamento em moeda estrangeira, em banco estrangeiro) é ilegal pelo L2 — o visto de acompanhante que me cabe. Ao que tudo indica, sua alma passa a pertencer ao IRS assim que você pisa nos EUA. Se eu quiser trabalhar, tenho de pedir um work permit que leva 90 dias pra ser aprovado.

São três mesinhos apenas. Dá uma vontadezinha de burlar a lei. Afinal, quem poderia provar o que eu faço dentro da minha casa, sem dinheiro nenhum trocando de mãos no país? Mas, se tem uma coisa que eu aprendi com a Glória Perez, é que com a Migra não se brinca.

E foi assim que, por força das circunstâncias, acabei na posição de ter de largar o meu emprego. E não é culpa minha se eu tenho de ficar de pernas pro ar, por três meses, no ensolarado Orange County. A vida quis assim.


As voltas do gigante

Segunda-feira, Junho 30, 2008

Pra quem cresceu achando que Retorno de Saturno era um nome hippie para histeria de mulheres pré-balzaquianas, estou afetada demais pela coisa, eu acho. Se bem que isso não prova nada — talvez eu seja apenas mais uma quase-trintona louca querendo pôr a culpa nos astros. De uma maneira ou de outra, os fatos são que 1) esse ano eu completo 28 e 2) esse ano tá foda.

Nas últimas três semanas apenas eu cheguei à conclusão de que quero: abandonar o jornalismo e virar tradutora em tempo integral; fazer uma pós em Lingüística; escrever um romance; largar tudo e virar psicanalista; lançar uma revista independente; parar de trabalhar para criar os meus ainda não existentes filhos; não ter filhos; ter filhos desde que possa criá-los junto da minha família no Brasil; ter filhos desde que eu possa criá-los em uma sociedade menos materialista; ter filhos desde que eu possa criá-los em qualquer lugar do mundo longe da minha sogra; abrir um negócio pontocom; terminar amizades que me fazem competitiva e louca; alimentar ainda mais amizades que me fazem competitiva e morrer louca tentando provar que eu ainda sou tudo aquilo que comecei a ser, e larguei; vender a casa e comprar uma caixa de sapatos em Londres; vender a casa e comprar um sítio; me jogar de uma ponte; me jogar de um prédio alto; me jogar de um avião.

Pra que lado estou pendendo? Nem idéia. Amanhã eu nem reconhecerei esses impulsos. Esse ano tá foda.


Das incongruências do matrimônio

Quarta-feira, Junho 25, 2008

Casamento é divertido, quentinho e faz bem pra saúde, mas nem tudo é perfeito, como é de conhecimento geral. Saia por aí perguntando e ouvirá preleções interessantes sobre a divisão dos afazeres domésticos, a administração das finanças, o regime sexual, a educação da cria.

Do alto das minhas bodas de oito meses, ainda não deparei com esses obstáculos. (Ou não mais, depois de treinar o marido a botar o lixo pra fora.) Apesar disso, não estou isenta de dificuldades. Pessoalmente, minhas picuinhas com essa milenar instituição social são duas: minha sogra e a escassez de Espaço Individual.

A velha é ruim pra caralho, vai durar pra sempre. Ou seja, não há nada que eu possa fazer a esse respeito, a não ser rezar e sentir pena de mim mesma. Mas pelo Espaço Individual (assim mesmo, com maiúsculas), é possível lutar.

Na minha casa nós tomamos café da manhã juntos, cozinhamos juntos, vemos TV (er, DVDs no computador, porque não temos TV) juntos, lemos na cama juntos. O que é uma delícia 99% do tempo. Mas as minhas células eremitas choram de saudade daqueles momentos de absoluta solidão em que eu podia tomar café, cozinhar, ver filmes e ler em perfeito silêncio. Não que a solitude mude essas atividades de maneira prática – é mais uma sensação de estar em retiro espiritual. Só eu e mim mesma, e Deus (ou Deusa. Ou deuses. Sei lá eu).

Foi por isso que, quando Mr G disse que iria viajar nesse último fim de semana para a despedida de solteiro de um amigo, botei um círculo vermelho no calendário e comecei a contagem regressiva: 180 dias, 179, 178… Me preparei adequadamente. Fiz reserva num hotel spa, botei montes de leituras na mala.

E sábado foi mesmo um dia iluminado.

No domingo eu não via a hora de ele voltar pra casa.

Oito meses e o Espaço Individual já não é mais o mesmo.