Quinta-feira, Agosto 27, 2009
Fui abençoada, no passado, com grandes amizades no meu local de trabalho. Por conta disso, era fácil equilibrar a vida social com o tempo na caverna que me é tão indispensável à sobrevivência: bastava aparecer na redação, algo que eu estava sendo paga para fazer de qualquer forma, e pronto — socialização consumada.
Sím, nós tínhamos (um pouco de) vida coletiva fora daquele prédio, mas essa era mais a exceção do que a regra. Afinal, passávamos um número estúpido de horas respirando o mesmo ar de segunda a sexta. Não só trabalhando, é claro. Almoçando, jantando, fofocando, fumando, tomando café, fazendo a unha e, até, vendo novela. Sair pra beber era um bônus, não um item necessário para que a amizade pudesse existir.
Aquela era acabou. Desde que saí do Brasil, minhas amizades presenciais se dividem em três grupos:
- Uma turma cuja população flutua entre oito e 12 indivíduos; nos encontramos cerca de uma vez por mês em eventos de longa duração envolvendo quantidades assustadoras de bebida.
- Casais que moram longe, com quem passamos fins de semana espaçados aqui e ali, consumindo quantidades assustadoras de bebida.
- Ex-colegas de trabalho, agrupados e avulsos; o programa básico é happy hour que se estende até o pub fechar – depois de ingerirmos quantidades assustadoras de bebida.
Verdade seja dita, eu me forço a ver gente com mais frequência do que a minha vontade de sair manda. Meu grau de interação ideal com o mundo é aquele que descrevi ali em cima, que deixa para mim mesma um mínimo de tempo para recarregar a pilha. Mas vá lá, eu não quero virar uma ostra por completo, por isso me esforço. O problema é essa cultura de atolar a fuça em álcool em troca de uma vida social. O que faz mais mal à saúde, cirrose ou solidão?
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Corpo e mente, Trabalho, Vida expatriada | Etiquetado: amizade, álcool, cirrose, solidão, solitude, tempo, vida social |
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Escrito por Mrs G
Quarta-feira, Agosto 20, 2008
Desemprego é um estado todo novo para mim. Sem chefe. Sem obrigações. Sem estresse. Sem deadlines. Acordar a hora que quiser (apesar de que, na minha idade, já não fico mais na cama depois das 10h nem com Lexotan). Passar o dia inteiro descalça. Ir pra piscina no meio da tarde. É a glória… e é estranho pra caralho.
Eu comecei com boas intenções: fiz uma tabela horária no Excel e planejei uma semana típica, com horário fixo pras refeições e pra outras atividades regulares, como exercício (boa menina que sou), estudos (o exame do DipTrans é em janeiro), aula de dança (de volta! yay!), trabalho voluntário (nada nas proximidades, mas oportunidades interessantes para trabalhar de casa).
Mas é difícil tentar organizar a vida quando tudo o que você faz é por opção. Que acontece se eu não for pra esteira hoje? Nada. Então vou me jogar no sofá e ler mais um pouquinho (umas 5 ou 6 horinhas, não mais). E o curso está em férias de verão, não tem pressa de estudar, tem? Vou gastar o resto do dia jogando conversa fora no MSN. O trabalho voluntário pode começar semana que vem, não pode? E por aí vai. Conexão expressa pro brejo.
Nem uma desempregada comum eu sou, porque não estou indo atrás de nada. Sabe aquela ansiedade que deveria haver para conseguir uma entrevista? Mandar 35 currículos por hora para qualquer lugar que diga ‘vagas’? Nada. Nix. Niente. Nothing.
Durante a minha única fase da lacuna entre empregos no passado, fiz frila até o umbigo alisar (expressão da minha mãe que, provavelmente, não foi concebida para ser utilizada nesse contexto) e mandei não 35, mas 70 currículos por hora, até estar com a minha carteira assinada de novo. (Figurativamente. Não assinaram a minha carteira.) Essa necessidade não existe, agora. Semana passada fiz uma pesquisinha de mercado, pra ver se conseguiria arrumar trabalho aqui por perto, e achei uma editora de revistas a dez minutos de casa. Com vagas. Em que isso mudou a minha vida? Em nada, porque não posso me candidatar até a bendita permissão sair. De volta ao nada.
E, ainda assim, chega o fim do dia e eu lembro que deveria ter preenchido um formulário X do meu cartão de crédito, ou que deveria ter ligado pra uma pessoa Y, e não tive tempo. Não tive tempo. Tem noção?! Como uma pessoa desempregada, que não está à procura de trabalho e está cabulando os estudos, pode não ter tempo? Mistérios do mundo. Acho que preciso empregar meu velho despertador de volta.
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Corpo e mente, Trabalho, Vida expatriada | Etiquetado: estudos, emprego, tempo, CV, desemprego, obrigações, estresse, horários, exercícios, trabalho voluntário, sofá, leitura, MSN, mistérios, despertador |
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Escrito por Mrs G
Segunda-feira, Julho 14, 2008
Por cima do mar de mesas ela vê o céu. O dia é de um cinza lívido. De tempo em tempo, revezam-se o frio e a chuva, como se tentassem cobrir entre eles, com recursos partilhados, as horas esparramadas do dia.
Expectativas, fantasias, planos, profecias. Que diferença há entre uma e outra? No fim das contas, estão todas contidas nela. Confinadas. Por mais alto que grite o seu desejo, ninguém lá fora consegue escutá-lo. Ou, se o faz, não liga a mínima, porque no mundo há fome e guerra e morte e desgraça. O problema dela é apenas o futuro.
Dentro dela os pensamentos são um peixe morto levado a nadar pelo sopro do motor de ar. Idéias do que foi ou poderia ter sido. Dor pelo que poderia vir a ser. Um desgaste sofrido e inútil. Quer desligar o movimento e poder cair inerte.
Ela continua girando na superfície, os olhos revirando no meio do aguaceiro, rezando, em sussurro, por uma pane que tire o motor de circulação. Porém o motor é ela quem controla. O motor é ela. E são ela o frio e a chuva que escurecem seus próprios dias. Mas ela continua a girar, porque sua fé — estúpida, injustificada e contra todas as provas em contrário — é persistente como erva-daninha.
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Continhos | Etiquetado: chuva, desejo, expectativas, fantasias, fé, fome, frio, futuro, guerras, morte, planos, profecias, sofrimento, tempo |
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Escrito por Mrs G