Quinta-feira, Dezembro 4, 2008
Eu decidi um tempo atrás que essa seria uma boa hora para tentar me estabelecer como frila. Afinal, enquanto estamos por aqui não precisamos nos preocupar com o financiamento da casa, que está alugada — o que me dá a flexibilidade de poder, aos poucos, fazer contatos e construir uma clientela. Com trabalho suficiente e regular, eu deixo de depender da geografia e posso dizer adeus a chefes e trens.
Tudo funciona muito bem na teoria, mas a prática está se mostrando um pouco mais difícil.
Talvez eu tenha perdido essa ‘evolução’ dos tempos, ou talvez essa moda não tenha chegado ainda ao Brasil, mas estou dando de cara, pela primeira vez, como o sistema de leilão de freelance. Funciona assim:
1. A empresa/editora/veículo publica o trabalho num ou mais bancos online, especificando suas necessidades. Por exemplo: “Revista americana procura jornalista para uma série de quatro reportagens especiais sobre baleias. 15 mil caracteres cada.”
2. Profissionais de qualquer lugar do mundo têm acesso à listagem e podem entrar na concorrência. John Smith, de Nova York, diz que entrega o material em seis semanas e que cobra USD 5 mil pelo pacote. Sandeep Patel, de Mumbai, pede USD 2 mil pelo serviço, com turnaround de um mês. Su Zhi Xiao, de Pequim, promete o trabalho em 15 horas, por USD 200. E se você ligar agora ele ainda joga umas camisetas no negócio.
3. Empresa/editora/veículo contrata Su Zhi Xiao.
4. Sandeep Patel não liga, porque recebeu uma oferta para dar suporte técnico por telefone para um provedor de internet britânico.
5. John Smith morre de fome.
Não digo que *todo mundo* esteja trabalhando assim, até porque ainda existem jornalistas vivos nesse país. Mas, à primeira vista, o cenário é sombrio. Quase chego a repensar chefes e trens.
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Jornalismo, Trabalho, Vida expatriada | Etiquetado: chefes, concorrência, contatos, desemprego, freelance, globalização, leilões, reportagem, teorias, transporte público |
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Escrito por Mrs G
Quarta-feira, Julho 2, 2008
A minha viagem da nova casa pro trabalho, e de volta, leva duas horas. Quatro horas por dia quase perdidas, não fosse pela parte mais longa da jornada, que me permite um assento no trem e, portanto, leitura, por cerca de uma hora pra cada lado. Nos demais trechos eu alterno entre corridas até outras estações ou plataformas e um Espaço Individual de uns 40 centímetros quadrados dentro do metrô mais quente e superlotado da face da Terra (e sim, eu já andei na linha leste-oeste em São Paulo às 5h da tarde).
As vantagens de morar no meio do mato são que a casa é espaçosa e a vizinhança, silenciosa, as escolas da região são aparentemente ótimas (praqueles filhos que eu ainda não tenho, lembra?) e pelo mato em si — o ar é puro e temos um jardim amigo com gramado e arbustos e árvores e o gato da vizinha, que gosta de deitar no nosso canteiro de flores e dormir o dia inteiro. (A vida dos meus sonhos, tirando os insetos.)
Tendo realizado essa corrida dos infernos por duas semanas e meia, sentindo com uma raiva especial das pessoas imbecis com quem trabalho por esses dias e estando à beira de um ataque de nervos (vide os quatro últimos posts; aliás, vide esse blog inteiro), me dei de presente um dia de folga. Pensei em todas as horas desperdiçadas no forno do transporte público, na maneira indigna como volto para casa todos os dias, suada e descabelada, e decidi que hoje eu colocaria uma toalha na grama e passaria o dia lendo revistas ao sol e não fazendo nada.
Como era de se esperar, o tempo que faria as minhas idas e vindas mais humanas se materializou justamente quando eu não preciso dele. Está frio, chovendo e cinzento. Duvet day, então? Sim, seria a solução perfeita, se eu tivesse uma cama de verdade. Internet? Ainda não foi reconectada (serviço de primeiro mundo!), então para escrever aqui e checar meus emails tive de comprar créditos e acessar a rede sem fio local.
Obrigada, verão inglês, por adicionar mais um grau no meu insanômetro.
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Meu dia, Trabalho, Vida expatriada | Etiquetado: calor, gatos, Inglaterra, loucura, metrô, natureza, transporte público, verão |
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Escrito por Mrs G